sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O portão do inferno.

Foi meu primeiro plantão como policial em dia de carnaval. Até certo horário tudo correu normalmente, apenas podia-se ver e ouvir os foliões passando em frente a DP, rumo ao local das costumeiras festas. Uns rindo e conversando, outros já trôpegos, diria já prontos, no estado que julgavam ser o ideal para “aproveitar” a noite. Homens, mulheres, rapazes, meninas, alguns, frequentadores da delegacia, outros, nem tanto, enfim, todos escoando em direção à praia. Ouvia-se muita música ao longe, entremeada pelo som extremo que partia dos veículos em circulação. Parecia um prenúncio de guerra. Deus, que saudade da minha casa! Assim permaneceu, como se toda aquela gente estivesse reunindo-se, acumulando-se, até o limite insustentável. Madrugada alta ouviu-se o som da campainha sendo tocada insistentemente, seguido de fortes batidas na grade de ferro, que fechada com um forte cadeado, impedia o acesso direto à porta da DP( abençoada grade!). Corremos para verificar o que estava acontecendo, antevendo alguma tragédia do tipo perseguição, homicídio, estupro, sei lá o que passou em nossas cabeças. Só sei que o prognóstico não era dos melhores. Ao abrirmos a porta ficamos estarrecidos com a multidão que forçava o portão tentando abri-lo. De imediato todos começaram a falar aos gritos, uns tentando sobrepor as vozes dos outros, numa gritaria impossível de entender. O plantonista, mais experiente que nós, volantes em início de carreira, gritou com a multidão, tentando colocar ordem e entender o motivo daquele tumulto. Apesar do ar livre, sentia-se o cheiro do álcool que recendia daquele conjunto. Cada pessoa parecia ter um motivo diferente para procurar a polícia. Ouvia-se sobre socos, pontapés, direitos a proteção, carteira que pegaram, um deu em cima da mulher do outro e uma coletânea de impropérios dirigidos a nós por não abrirmos o portão para que ingressassem na delegacia. Aquele portão parecia que nos separava do inferno, de Sodoma e Gomorra, ou algo do gênero. A primeira coisa que pensei é que o xadrez era pequeno para tantos e éramos somente três policiais. Fazer o quê com aquele bando de loucos alcoolizados? Percebendo a falta de possibilidade de continuarem a noite tumultuando na delegacia, o bando começou a dispersar aos poucos, pois além de não receberem o menor acolhimento de nossa parte, ouviram que seriam presos por vandalismo.  
Poucos restaram, entre eles aquele que provavelmente incitara o grupo. Gritava o próprio nome com a língua enrolada, dizendo que podiam prendê-lo e não esclarecia a razão de sua presença. Apenas repetia o seu suposto nome e gesticulava, sacudia o portão e enfiava os braços entre as barras de ferro, como se quisesse passar por entre elas. Apoiada nas grades estava uma mulher com aparente idade de 50 anos, cabelos descoloridos, maquiagem fortíssima já meio escorrida, com uma sombra azul quase anil colorindo as pálpebras, e um vestido curtinho, rodado, semelhante ao de colombina. Perguntei o que desejava. Respondeu que seu companheiro havia sumido. Evidente que eu quis saber se ela já havia ligado para casa, para verificar se ele não teria ido embora da festa para dormir. Ela prontamente explicou que não moravam juntos, que se conheceram na festa e depois ele sumira. Ela queria uma providência da polícia, que fosse realizada uma busca para encontrá-lo. Não preciso dizer que o nível de álcool no sangue da colombina devia estar altíssimo, julgando-se pelo cheiro que a envolvia e por suas pálpebras que teimavam em querer fechar. Não foi muito difícil convencê-la de que era melhor esperar pelo companheiro perdido em casa. Lentamente e com dificuldade para acertar os passos a colombina seguiu pela calçada, indo, talvez, para casa, ou em busca do pierrô sumido ou de um arlequim desgarrado, quem sabe. O portão permaneceu fechado, impedindo que o inferno invadisse a DP, pois já bastam os momentos em que isso ocorre, não raras vezes, por necessidade premente.    

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Olhos verdes.




Saímos para cumprir um mandado. A tarde estava abafada e úmida. Chegamos ao casebre, e um homem velho nos atendeu. No interior, numa cama de casal, duas mulheres que dormiam despertaram ao entrarmos. O ar naquele lugar era irrespirável. A distância entre as tábuas do chão permitia ver que logo abaixo havia um solo úmido, de onde exalava cheiro de esgoto. As buscas iniciaram percorrendo os cantos do cubículo destinado à cozinha. Sobre o fogão havia panelas com restos de comida do almoço, fermentando com o calor e atraindo a presença de moscas. O Velho tossia muito, assim como uma das mulheres, segundo eles, em razão de asma. Mais provável uma tuberculose, em vista da desnutrição. Nós, ali, respirando o mesmo ar viciado e saturado pelo mau cheiro. O esgoto da casa corria para uma vala rasa, que transbordara durante as fortes chuvas que caíram na região. Por isso, o terreno ficara coberto por uma fina camada de excrementos  fluidificados. Era difícil a revista do local; era nojento mexer em qualquer coisa lá. Em seguida chegaram três crianças, filhos de uma das mulheres. Um dos pequenos começou a chorar, assustado com a nossa presença. A mãe mandou que sentassem em um degrau. Abaixei para conversar com eles, tentar acalmá-los. Deparei com  três lindos pares de olhos verdes a me fitar, com a inocência peculiar das crianças, vivam onde viverem. Ali era a casa delas. Sobre o fogão, a comida em fermentação que comeriam. Aquela mãe que tossia era o único porto seguro que conheciam. Estavam brincando na margem do rio, quando alguém avisou que fossem para casa; e para lá correram, sem entender o que acontecia. Passado o susto inicial, logo já estavam à vontade, apesar da nossa presença, encantados com a viatura. Receberam alguma atenção nossa e foram acalmando. Dava para perceber que aquelas crianças haviam tocado o coração de cada um de nós, embora não pudéssemos demonstrar abertamente. Resolvemos ir embora, pois nada havia ali. Porta fria, mas o coração febril, apertado. Da viatura olhei novamente para as três e só pude pensar onde estava Deus. Vida de polícia.... Alguém quer experimentar?

domingo, 2 de setembro de 2012

Um, dois, três, ladrão!! Brincar de esconde-esconde deu cana boa!!


Pois foi assim, numa tranquila tarde de um feriado, num plantãozinho básico. Estávamos na DP, quando tocou o celular da Volante. Meu parceiro atendeu. Do outro lado da linha a proprietária de um estabelecimento comercial local, que, durante a madrugada, havia sido arrombado pela segunda vez na mesma semana. Muito nervosa, pedia ajuda, relatando estar com serralheiros colocando grades na loja, e haver um sujeito parado na calçada observando os trabalhos. Relatou que esse trajava uma camisa idêntica a uma das que haviam sido furtadas da vitrine na madrugada. O colega – que era cliente da loja –  explicou que não poderíamos agir apenas em função da semelhança entre a camisa furtada e a usada pelo sujeito; disse que iríamos dar uma circulada e passaríamos na loja. Ao chegarmos lá, soubemos que o desconhecido já havia saído do local, acompanhado de outro elemento. A partir da descrição dada pela comerciante, visualizamos um deles, que se deslocara até um ponto de ônibus, distante uns 200 metros, em uma transversal à rua da loja. Trafegamos lentamente até ele e resolvemos abordá-lo. A criatura estava na “paz”, sentado em uma pedra, olhos congestionados e não se alterou diante da nossa chegada. Estava sem identidade e nos forneceu o nome  completo, endereço, nome da mãe, data de nascimento, num ar de total inocência. Admitiu ter “fumado um” e que estivera na frente da loja para observar o trabalho dos serralheiros. Sem termos mais nada para fazer ali, entramos na viatura, deixando o rapaz no local. Meu parceiro, meio ninja, apenas disse: – Tinha um cara, do outro lado da rua, que saiu de fininho quando chegamos. Era o outro. Entrou naquela casa logo ali. Vou te mostrar.
Dei-me conta de que eu tinha fixado o primeiro sujeito e não tinha visto o segundo. Fiquei irritada comigo, pois havia “comido mosca” durante a abordagem. Dizem que olhos de japonês são dois risquinhos, mas, evidentemente, isso não elimina a acuidade visual. Passamos, então, na tal casa, e lá estava o outro, sentado dentro do pátio. Nada podíamos fazer. Fiquei frustrada com a situação. Retornamos à loja. Meu colega foi falar com a  proprietária, e eu resolvi caminhar até a esquina, para visualizar a casa e ver se o sujeito havia saído para a rua novamente. Como eu queria saber qual era o plano daqueles dois! Na esquina, espiei, como uma criança brincando de esconde-esconde. Não queria ser vista pelos dois sujeitos.
Os transeuntes devem ter achado estranho o meu comportamento, encostada no imóvel da esquina, espiando a rua transversal. Para minha surpresa, visualizei os dois rapazes juntos no ponto de ônibus. O malandro havia saído do ferrolho! Voltei correndo para a viatura chamando o meu dupla. Ele não sabe, mas naquele momento me senti com oito anos e prestes a gritar: – Um, dois três, ladrão! Bati! – como fazia quando brincava de esconder. Num piscar de olhos, já estávamos ao lado do segundo sujeito, que carregava uma mochila e já retornava para a casa onde o havíamos visto anteriormente. Meu colega pediu que ele parasse para conversarmos. Descemos, encaminhamos o suspeito para a calçada e pedimos seus documentos. Quando meu dupla pediu para que ele abrisse o casaco, eis o que apareceu por baixo: dois outros casacos, iguais em cor e modelo. Não estava tão frio para ele estar vestido como uma cebola, trajando tantas peças sobrepostas, estranhamente iguais e com aparência de novíssimas. Pedimos que mostrasse o conteúdo da mochila. Ao abri-la, vimos que havia várias peças de roupas. Cada peça trazia a etiqueta com o preço. Gostei do sorriso que brotou no rosto do meu parceiro. Um misto de satisfação e humor, pois, para nós, chegava a ser engraçado flagrar a criatura portando tudo aquilo e, ainda mais, em frente à própria residência. Como havíamos constatado ser  menor de idade, atravessei a rua e fui chamar a mãe dele. Da porta de entrada deu para ver que a sala era usada como brechó. Acho que o nosso “jovem cliente” estava querendo entrar para o comércio de roupas, inspirado na atividade comercial da mãe. O resto da história correu como costuma sempre que o autor é adolescente. Tudo devidamente registrado em conformidade com a lei, inclusive o relato sobre a participação do outro envolvido, que, aliás, vendo a cena na rua, desapareceu do ponto de ônibus quase num passe de mágica. Escafedeu-se! Foi um bom trabalho, com resposta quase imediata à vítima, que recuperou uma boa parte de suas mercadorias furtadas. Nós, policiais, pela sensação de dever cumprido, ganhamos o dia. O largo sorriso juvenil do meu colega, ao comentar os fatos, evidenciava a satisfação que sentia. E, na minha fisionomia, talvez estivesse presente a expressão da infância, ao bater alguém antes que chegue ao ferrolho. Pois é, em meio às agruras do trabalho policial, ainda conseguimos sorrir: ou por conta da imaginação divertida; ou da operação exitosa, afinal, é muito bom ser feliz trabalhando. Mas eu só quis dizer, em homenagem ao meu querido amigo e ex-dupla da Volante, um policial dedicado e ser humano que amo como a um filho.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Rebuliço no jardim.



Em seus vasos no jardim, preguiçosamente instaladas, flores e verdes num silêncio profundo, como acontece em todo o mundo.
De repente um grito: - Ela vem vindo! Vamos fingir que estamos dormindo!
Equipada com tesoura, vassoura, regador e pá, chega Maricota ao jardim e logo percebe o ar de indiferença forçada em suas plantinhas amadas. Margaridinha virou seus ramos e flores para outro lado, fingindo não perceber a chegada da jardineira, sempre tão faceira. Azaleia fingiu sono, ensaiando um cochilo; enquanto os gerânios cochichavam uns com os outros, fingindo analisar seus pistilos. Outras plantas, mais tímidas, assistiam a cena sem qualquer manifestação, contendo a admiração.
Sem rodeios, Maricota foi logo cumprimentando e em seguida perguntando:
- Bom dia, queridas! Estão com saudades de mim?
A azaleia, majestosa e muito sem querer se pôs a  responder:
- Nem pensar! E hoje é domingo, estamos saindo para o jasmim visitar.
Percebendo um certo ar de ressentimento, dona Maricota tentou convencer:
- Mas pensei muito em vocês, em cuidá-las outra vez.
A flor-de-mel, com um ar aborrecido esbravejou num tremido:
- Não queremos nos arrumar, deixa o vento estragar!
Tentando uma conciliação, Maricota deu uma explicação.
- Mas é preciso, a primavera vai chegar! Vocês todas vão gostar!
A malva, muito biliosa, tratou de retrucar:
-Por que tanto interesse? Passavas e nem nos olhavas! Florescemos a valer para nos olhares outra vez.
Maricota, sempre muito persistente, a irritada malva acariciou e a todas com simpatia explicou:
- Sinto muito, minhas lindas, eu estava muito cansada, sem tempo pra quase nada.
O pingo-de-ouro, antevendo seu destino, berrou como um militar em guerra.
- Mas em nós não tocas não, chega pra lá com esta mão e com este baita tesourão!
A tesoura, muito meiga e constrangida, tratou de amenizar.
-Vou cortar só um pouquinho, mas como se fosse um carinho!
A pá de lixo, costumeiramente muito metida, resolveu se intrometer. Olhando para a flor–de-mel exclamou a descrever:
-Céus como estás escabelada! Galhos secos e flores misturadas!
Maricota, examinou aos gerânios e a um deles perguntou:
- E que bichinhos são estes, grudados nos teus raminhos?
Com um ar triste a pobre flor do gerânio explicou.
- É cochonilha branquinha, que me deixa bem magrinha.
Compadecida, Maricota sentenciou:
- Então vamos limpar, para você hidratar.
A vassoura, muito solícita, foi logo se pronunciando:
- Prometo que só vou parar, quando o jardim embelezar.
Maricota ia fazendo a limpeza nos gerânios, limpando as cochonilhas, que muito a contra gosto, desgrudavam dos ramos da plantinhas. Enquanto limpava a todas falava:
- São minhas preferidas e sempre as mais queridas!
A tesoura, com voz levemente rouca e melosa, pedia licença para cortar os galhos secos das agitadas plantinhas chorosas. As violetas, muito frágeis e dengosas, logo cederam ao carinho da tesoura, que afirmava não ser dolorosa.
- Se é assim mesmo, deixamos, mas se doer te avisamos - diziam elas em sua meiguice.
E a tesoura ia cortando, muito disposta confortando. Folhas secas e amarelas teriam que sair delas.
- Não vai doer não, todas vão ficar limpinhas e só com as folhas verdinhas.
Ao ver seu vaso arrastado margaridinha gritou:
- Ai, credo, ela vai me trocar de lugar, para onde vai me levar!?
A vassoura, muito segura, tratou de ser categórica.
- Calma, margaridinha, só quero fazer uma limpezinha, o teu vaso está muito sujo, tem até um caramujo.
Azaleia, cheia de indignação, teve um ataque de tosse. Pediu à Maricota mais consideração
- Cof! Cof! Larga essa vassoura! Te prefiro com a tesoura!
A pá que era de pouca fala, mas muito metida, interveio, querendo se meter no meio.
Mas a vassoura ralhou, pois a pá se engasgou.
- Calma, dona azaleia, é preciso cuidar, para muito limpo ficar! Eu estou gastando as minhas cerdas de tanto esfregar e você não para de reclamar!
Depois de tanto trabalho, chão limpo, galhos e folhas secas ensacados, o regador, que até ali era mero observador, resolveu soltar o verbo e como um mestre de cerimônia anunciou o encerramento com toda a parcimônia.
- Agora para finalizar vou molhar para hidratar. Para cada menina, água com vitamina!
Maricota, cheia de orgulho de tão bom resultado, perguntou ansiosa, olhando para todo lado:
- E agora minhas lindinhas, que tal, se sentem limpinhas?
Muitas vozes responderam de cada modo diverso, que se sentiam muito bem, as mais lindas plantas do universo.
Mas eis que um grito de socorro ecoa  do saco plástico, fazendo Maricota, seus equipamentos e as plantas levar um susto fantástico.
Correndo em direção ao saco, Maricota olhou para dentro dele e perguntou quem gritava, pois da voz se admirava.
- Somos nós, os galhos e as folhas secas, quem mais poderia ser? Tiraste a nossa moradia, pensamos que isso não aconteceria. Vais nos mandar embora, colocando-nos fora?
Maricota sorrindo acalmou o monte ensacado.
De jeito nenhum, vocês são importantes, só não ficarão onde estavam antes. Misturados com minhocas farão um belo composto, pelo qual as plantas têm muito gosto!
E assim com todos contentes encerrou o rebuliço, mas eu só quis dizer isso.


Da criança criativa que sobreviveu em mim, apesar dos pesares, para  as crianças criativas,  ainda crianças, apesar dos pesares.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ponderações


Estou em processo de despedida da localidade onde iniciei minha jornada como policial. Dizer adeus aos colegas, aos colegas amigos e aos meus loucos queridos da cidade, que fizeram parte dos meus plantões, não é fácil. A sensação de vazio invade a alma, a incerteza aperta a garganta, de onde quase sai um pedido de –venham comigo! Ah! Como eu gostaria de não ter que mudar, embora a mudança seja desejada! Contraditório, não? Pois é, mas lá conheci a realidade policial e um mundo, como muitas vezes já expressei, diferente daquele de outras fases da minha vida. Lá vivi momentos muito bons, muitos risos, assim como muitas angústias, que valeram mais que uma disciplina acadêmica. A sensação de perda ocorre porque essa acontece mesmo. Encerrar um período dá essa sensação, pois, seja lá como for, há algo deixado, sem que jamais possa ser resgatado. Não há resgate quando o retorno evidencia grandes diferenças. Se eu retornar depois de um período, o que encontrarei? Alguns terão ido, outros terão vindo, e o cenário terá, também, muitas diferenças. E tampouco seremos iguais. E tudo faz parte da composição da vida; é assim que acontece. Início e término de fases, sentimentos para serem avaliados e expectativas quanto à nova fase; cada coisa em seu tempo e lugar. Quanto aos sentimento, sempre gosto de frisar que o policial é um dos profissionais que mais disfarça o que sente, guarda seus sentimentos em um canto, mas deles não consegue fugir na solidão de uma noite insone. E as marcas ficam espalhadas pelo rosto, acumulando-se, e muitas vezes sendo expressas por uma fala amarga sobre os eventos da vida. Percebo isso e luto contra, não quero mudar a minha forma original, não quero que os demais mudem também. Quero ser a acolhida de quem necessita, quero ter a palavra terna para quem me procura, quero ser humana como creio que todos devam ser. Mudei muito, não há como negar. Fiz-me mais firme, mais resistente e mais controlada, mas meu caráter continua essencialmente o mesmo, e até o meu mau humor matinal continua sendo interrompido apenas pelo café-da-manhã. Algumas coisas permanecem: são marcas registradas. Agora novos caminhos se abrem e eu quero percorrê-los, digo seguramente que o preciso fazer. Sei que mais tarde encontrarei estes mesmos colegas em algum lugar qualquer, e haverá muita fraternidade no encontro. Sobre isso preciso abrir parênteses explicativos.
Trabalhei muito anos como professora, e os reencontros esporádicos com ex-colegas não foram de muita fraternidade. Diria que neles havia uma certa frieza, um distanciamento, salvo naqueles casos em que tivesse ocorrido uma aproximação maior, ultrapassando o contexto profissional; filhos que conviviam bem, maridos em clima de camaradagem, convites para jantar reunindo as famílias, eticetera. Pois bem, entre policiais, há reencontros mais efusivos, salvo alguns casos pontuais. Ouvindo um colega aqui e lá, percebi que a explicação talvez se funde no fato de sermos considerados, por muitos, “párias” da sociedade. Somos uma categoria profissional estigmatizada por atos do passado. As condutas mudaram, os tempos são outros, mas o estigma permanece. A sociedade recorre a nós de acordo com a necessidade; mas nos imputa a responsabilidade das mazelas na segurança. Algumas vezes heróis, algumas vezes algozes, e tantas outras vezes quase marginais, segundo o entendimento geral. Nos tornamos muito próximos, embora a família de cada um seja mantida à parte. Creio ser uma forma de apoio e compreensão “sui generis”. Daí surge a expressão “família Polícia Civil”, num artifício de indução a crer que não estamos sós. Só polícia entende polícia, numa estranha relação, que perpassa da competitividade na convivência diária,  à proteção exacerbada em meio ao tiroteio. Uma relação instigante para estudo em vista da importância no contexto criado pelos próprios policiais. A Policia Civil que eu conheço é um bloco único. Independente da lotação somos colegas e solidários. Qualquer conduta diversa é um desvio. E a origem deste pensamento vincula-se à existência de uma Academia, de onde saem todos os policiais que lotarão as DPs do Estado. Desconheço qualquer policial para o qual os tempos de Academia não tenham sido uma etapa marcante. Piores e melhores momentos de cada um são narrativas presentes nas conversas entre colegas, independente do tempo decorrido. É o ponto em comum inicial e, por aí, muito mais haverá. Em cada Delegacia, uma realidade peculiar, íntima aos que nela trabalham. Há uma riqueza de experiências em cada um, que o afastamento transforma em perda. Estou perdendo num lugar e sei que ganharei em outro, pois é sempre assim. Mas eu só quis dizer.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Lampejo.

Ela estava sentada em sua cadeira preferida, que a fazia balançar suavemente no compasso do tique-taque do relógio. Os cabelos lisos e prateados, presos por um delicado passador. A sua frente a madeira queimava na lareira, trazendo o calor aconchegante ao seu frágil corpo. As rugas, que lhe marcavam toda a face, não escondiam um certo ar maroto e feliz. Entregue às lembranças e à imaginação, percorria caminhos, tal como fizera outrora e imaginava-se em outros ainda por conhecer. O corpo não a levava mais aonde queria ir, mas a imaginação e as lembranças sim. Era ela, a imaginação, seu último contato com o muito ainda por conhecer e fazer. A incoerência biológica, imposta ao seu corpo, a envelhecera; porém esquecera de avisar ao espírito que envelhecesse também. Há muito tempo um amigo, ao ouvir suas narrativas, a havia chamado de espírito jovem. Ela ainda possuía essa característica, fruto de um insaciável amor pela vida. Queria experimentar, conhecer, sem admitir as imposições do tempo; mas este vencera seu corpo e poupara seu espírito, o qual a impulsionava a ter toda a emoção que desejava, sem sair de sua cadeira. Suavemente adormeceu, num cenário muito azul e brilhante...Mas eu só quis dizer.

domingo, 18 de março de 2012

Retalhos da Adolescência.


Muitas vezes, tenho lembrado de minha adolescência, de amigos e de colegas com os quais convivi e até reencontrei depois de muitos anos. Ainda recordo de características de alguns deles e de momentos de convivência com acontecimentos marcantes. É bem verdade que, naquela fase, eu não tinha tempo para analisar muito; estava mais focada em  tirar boas notas no colégio, para não ser xingada em casa, e em cuidar do coração, sempre apaixonado. E quantas paixões! Pouco duradouras, bem verdade, mas que faziam a vida ser colorida e repleta de borboletas. A vida social acontecia toda em função do colégio, pois naquele tempo, ocorriam bailes e reuniões dançantes, organizadas pelo grêmio estudantil e pela direção da escola. Todas as atividades esportivas e comemorativas desfechavam num acontecimento dançante. Nas vésperas da festa, quase deslizávamos pelos corredores do colégio, tal a euforia com o acontecimento que se aproximava. O coração ficava aos pulos, só em pensar se os nossos alvos de afeto nos tirariam para dançar na festa. Tudo meio platônico e, como tal, idealizado, o que resultava numa grande emoção ou numa decepção. As mães acompanhavam as filhas e ficavam reunidas na mesma mesa, para conversar e vigiar.
No dia de aula seguinte, após o evento, passávamos cochichando com as melhores amigas em plena sala de aula. Olhares sonhadores ou até olhos inchados, pelo choro triste da desilusão amorosa, faziam parte do momento. Fofoquinhas sobre esta ou aquela colega também compunham o contexto. Mas parecia ser tudo muito dinâmico, e o momento logo ficava para trás, assim como os amores tão devastadores, quanto efêmeros. Mudei de escola para cursar o científico (assim era a denominação na época). Fui para o Colégio Júlio de Castilhos. Confesso que queria muito esta mudança. Mesmo podendo chocar os ex-colegas do Cruzeiro, digo que já estava saturada daquela mesmice, queria mudar de escola, conhecer novas pessoas. A vida na minha casa era um verdadeiro tédio. E eu, talvez por isso, adorava mudanças. Mudei e gostei mais do que poderia imaginar nos meus delírios adolescentes. Lá eu não era nem filha, nem irmã de alguém, como havia sido até então; era simplesmente uma aluna. Meu rito de passagem para uma adolescência com vistas ao amadurecimento ocorreu ali. Conquistei a minha individualidade, meio perdida e meio deslumbrada. Estudar no Julinho em tempos de ditadura militar tinha o seu glamour, fazia com que me sentisse uma rebelde, sem causa obviamente, mas, ainda assim, rebelde. Cá entre nós, política não era o meu forte. Aliás, acho que o de ninguém, em vista do grande tabu criado pelo governo militar. Protestos contra o uso obrigatório do uniforme foram o máximo de ativismo que pudemos experimentar. Foi assunto, durante muitos dias, a cena dantesca dos Pedro e Paulo (assim eram chamados) saltando de seus veículos com cassetetes nas mãos, para se pôr em perseguição aos alunos que se negavam a entrar na escola. Meninos e menina,s entre 14 e 18 anos, fugindo aos gritos, em seus rejeitados uniformes amarelo-ouro e marrom. Apesar do absurdo, aquilo tudo nos rendeu lembranças e conversas emocionadas. Lembro do diretor do turno da tarde, horário em que acontecera o protesto, em estado de desespero pelo episódio. Jurava não haver chamado o policiamento. Recolhidos ao interior do colégio, ficamos por um longo tempo olhando, através dos vidros, os policiais, enfileirados, cobrindo toda a frente do prédio, como a transmitir a mensagem “saiam e verão o que lhes acontece”. Não saímos, lógico! Depois de um tempo, fomos para as respectivas salas de aula. O colégio, que tinha fama de ser reduto de alunos comunistas, nem grêmio estudantil possuía mais; somente tinha por alunos uma legião de adolescentes rebeldes, em busca de um pouco de aventura, tal como há em todos os tempos. E ríamos, e brincávamos, e namorávamos de uma forma tão leve, que passaríamos por retardados aos olhos dos adolescentes de hoje.
O bairro onde morava deixou de ter o significado de vida social para mim. Passou a ser somente onde estava localizada a minha casa. A família, extremamente conservadora, era um ponto de referência, e eu a sentia, muitas vezes, como um serviço de carceragem. Era o que me mantinha dentro dos padrões convencionais. Mas digo, com toda a sinceridade, que o que eu queria naquele tempo era ganhar o mundo, ser livre, embora nem saiba explicar o que entendia por liberdade. Eu queria poder pensar diferente e até este direito me era tirado. Cedo descobri que pensar e não expor meus pensamentos era a melhor forma de preservar a minha liberdade de ser e sentir. Não conseguia pensar como queriam que eu pensasse e, por esta razão, era constante alvo de recriminações em casa. Até hoje me questiono sobre os motivos. Aprendi a mostrar de mim apenas aquilo que sabia não provocar conflitos. Foi a forma que encontrei de preservar a minha alegria e individualidade, e de ter um mundo no qual as minhas idéias sobrevivessem. Dele os contrários eram merecidamente excluídos. Era como ter vida dupla. Uma em família e outra no mundo, longe dela. E, do meu jeito, consegui sobreviver ao afogamento pelas lágrimas de adolescente, em fuga da total falta de um diálogo familiar franco. Criei minhas asas gradativamente. Aonde elas me levaram? À conquista de ser, dizer, chorar e rir, sem interrupções de comando. Alguns devem se pôr a imaginar que criatura difícil fui. Podem esquecer. Acredito que a austeridade daquele tempo, quando alguns pais reinavam absolutos em seus lares, transformasse em problema o filho que tivesse alguma personalidade. Respeito era o chamado acatamento das vontades paternas. Mas, na minha casa, a rigidez era visivelmente maior do que na casa das minhas colegas. Espontaneidade era sinônimo de falta de trato social, falta de juízo e de tantas outras coisas consideradas inadequadas na minha família.  Muitas vezes, reflito sobre o quanto a repressão emocional deixa marcas em nossas vidas, levando até ao desespero, se a inteligência não apontar um caminho alternativo que permita o desabrochar da personalidade. Com o tempo, já tendo constituído minha família, passei a dialogar mais francamente com meus pais. Eu não dependia deles, e o perceptível medo da solidão os fez ficarem mais contidos no quesito austeridade. Mas a minha adolescência já havia ido embora, sem uma vez sequer ter sentido ser algo mais que uma preocupação. Não dói mais. Mas eu só quis dizer.