sábado, 6 de abril de 2013

Palco...para quê?


Um dia eu pensei que não queria mais voltar. Pensei que todo o meu esforço havia sido em vão. Sentia-me convencida de que era hora de mudar de caminho, procurar outra estrada. Entrei em casa chorando e fui cercada pela energia mais fortalecedora que existe no mundo: o amor do meu marido e dos meus três filhos. Disseram:-Volta, pois quem te subestima é porque não te conhece!
Voltei. E aprendi que o medo alheio é uma resposta desejada por muitos,e um prazer que não gosto de proporcionar. Desde então, sinto-me permanentemente agasalhada pelas asas de um anjo. É um conforto indescritível, divino, que só me traz fortalecimento para buscar a justiça e oferecer apoio aos que precisam. Percebi que aqueles que oprimem ou maldosamente prejudicam, cedo ou tarde caem ao solo, vítimas de seus próprios sentimentos. Não travo lutas individuais buscando o   autobenefício. Luto pelo que acredito ser justo ao grupo. O que é meu está reservado e será sempre conquistado através do esforço, da competência. Não almejo louros, purpurinas ou outras coisas efêmeras. Desejo é ter gente feliz a minha volta, convivendo em clima de harmonia, livre do peso da opressão e da disputa, que, por vezes, são tão mesquinhas que tornam-se risíveis. Algumas pessoas lutam tanto entre si pelo destaque, que sequer percebem que o  palco no qual ambicionam subir não passa de uma caixa de fósforos, tão minúsculo o tamanho. Para as formigas, uma caixinha parece um grande espaço. O que dá acesso e, especialmente, a permanência nos grandes palcos da vida é a luz individual, o talento natural para transformar o mundo que nos cerca em um lugar melhor para viver e conviver.E o que mais podemos ambicionar? Porém, a maldita vaidade humana sem os freios do bom senso e, fortalecida pela mesquinhez, arrasa qualquer ambiente.Mas é preciso perseverar, dia após dia, sem deixar-se abater. Não é preciso dizer, basta fazer. E lembro da frase -volta, pois quem te subestima é porque não te conhece!- e volto disposta a tentar. Quem é capaz lê nos meus atos uma clara mensagem de desejo por transformações. Quem não faz a leitura, bem...deixa estar, milagre não é a minha especialidade. Ambiciosa? Sim, talvez mais do que qualquer um. Quero um imenso palco sobre o qual todos possam estar num feliz estado de harmonia e demonstração de seus talentos. Parece demais? Não, é só o caminho da boa e produtiva convivência.Vale para qualquer local. Basta que cada um ligue o seu próprio desconfiômetro e perceba seus excessos. Tenho os pés firmes no solo e percebo que a única forma de encontrarmos qualidade na necessária convivência é investindo na valorização mútua.Não podemos continuar na desenfreada competição e no constante hábito de sabotar uns aos outros, em nome da ambição e do prazer de afligir aos mais frágeis.A vida é muito curta para ser gasta em uma vivência medíocre.   E, explorando um pouco mais a linguagem figurada,digo que estou aprendendo a navegar, mas o mar e os peixes são meus velhos conhecidos.Ensina-me a navegar que te contarei sobre os mistérios do mar, e, juntos, faremos uma grande pescaria. Mas eu só quis dizer.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Voar é para os pássaros, mas eu também quero.


Voar é para os pássaros, mas o homem, louco de inveja e sedento de adrenalina resolveu arranjar um meio de realizar a proeza. Eu, como gosto de deslocamentos rápidos, nada posso fazer senão aderir. Mas, cá entre nós, não espalhem, não consigo ficar confortável dentro daquele trambolho com asas. Confesso que, se adiantasse, embarcaria vestida com roupa de mergulho completa, (incluindo cilindro de oxigênio e pés de pato) e paraquedas, pronta para qualquer eventualidade. Mas, segundo um amigo piloto, não é solução. Resta desistir da ideia, relutante, muxoxeando como criança e, enfrentar. É que sinto uma certa insegurança, em vista da distância do solo. Nas alturas as nuvens são lindas, o relevo distante, tão cheio de altos e baixos, torna-se minúsculo e o oceano parece uma película brilhante. Tudo parece composto de serenidade, menos os meus pensamentos, que insistem em questionar o que a falta de opção deveria vetar por ser inquestionável. Será que o piloto dormiu bem antes do voo? Será que pilota tão bem quanto eu dirijo? Bah, daí a coisa fica complicada e resolvo ler, sem sair da mesma linha por dez minutos. Foi mais ou menos assim o meu retorno do Rio. Voo atrasado sem explicações seguido de um ritual moroso entre acomodação de sacolinhas, bolsas e distribuição de balinhas. O piloto com voz sensual comunicou um defeito na ventilação, já sanado, o que foi confirmado pelo cheiro de óleo ou plástico que começou a exalar junto com o vapor que saia pelo duto. É incrível como as pessoas fazem cara de paisagem diante de situações duvidosas! Entendi a razão de não deixarem embarcar com artefatos do tipo machados, martelos e outros, pois pensei que seria bom ter um deles para quebrar o vidro e deixar entrar ar de verdade por aquele buraco, que imagina-se ser uma janela. Depois de muito anda e para na pista, o urubu subiu! Cruzes! Mais ou menos na metade do percurso, cansada de tanta reza forte, novamente ouvi o piloto, ou o comissário, dizer para ficarmos sentados com os cintos, pois estávamos atravessando uma área de turbulência. Eu senti um forte ímpeto de levantar e gritar-vai à merda e dirige esta porcaria direito, motorista!-mas evidentemente mantive a cara de paisagem padrão, comum no avião.
No final das contas, nem sacudiu muito. Foi só um 1º de Abril aplicado pelo piloto em pleno mês de fevereiro. Pousamos em Porto Alegre, para minha alegria, com a destreza de um pelicano, e todos os passageiros com cara de paisagem. Foi mais ou menos assim, sem contar o duelo entre o comissário e uma velhinha. Bem, não sou um pássaro, e sofro da inveja original dos humanos querendo voar também. Deve ser também uma ponta de masoquismo da minha parte, disfarçada de senso prático, mas que deixo para analisar em outra vida, pois nesta estou ocupada planejando o próximo voo. Mas eu só quis dizer.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O portão do inferno.

Foi meu primeiro plantão como policial em dia de carnaval. Até certo horário tudo correu normalmente, apenas podia-se ver e ouvir os foliões passando em frente a DP, rumo ao local das costumeiras festas. Uns rindo e conversando, outros já trôpegos, diria já prontos, no estado que julgavam ser o ideal para “aproveitar” a noite. Homens, mulheres, rapazes, meninas, alguns, frequentadores da delegacia, outros, nem tanto, enfim, todos escoando em direção à praia. Ouvia-se muita música ao longe, entremeada pelo som extremo que partia dos veículos em circulação. Parecia um prenúncio de guerra. Deus, que saudade da minha casa! Assim permaneceu, como se toda aquela gente estivesse reunindo-se, acumulando-se, até o limite insustentável. Madrugada alta ouviu-se o som da campainha sendo tocada insistentemente, seguido de fortes batidas na grade de ferro, que fechada com um forte cadeado, impedia o acesso direto à porta da DP( abençoada grade!). Corremos para verificar o que estava acontecendo, antevendo alguma tragédia do tipo perseguição, homicídio, estupro, sei lá o que passou em nossas cabeças. Só sei que o prognóstico não era dos melhores. Ao abrirmos a porta ficamos estarrecidos com a multidão que forçava o portão tentando abri-lo. De imediato todos começaram a falar aos gritos, uns tentando sobrepor as vozes dos outros, numa gritaria impossível de entender. O plantonista, mais experiente que nós, volantes em início de carreira, gritou com a multidão, tentando colocar ordem e entender o motivo daquele tumulto. Apesar do ar livre, sentia-se o cheiro do álcool que recendia daquele conjunto. Cada pessoa parecia ter um motivo diferente para procurar a polícia. Ouvia-se sobre socos, pontapés, direitos a proteção, carteira que pegaram, um deu em cima da mulher do outro e uma coletânea de impropérios dirigidos a nós por não abrirmos o portão para que ingressassem na delegacia. Aquele portão parecia que nos separava do inferno, de Sodoma e Gomorra, ou algo do gênero. A primeira coisa que pensei é que o xadrez era pequeno para tantos e éramos somente três policiais. Fazer o quê com aquele bando de loucos alcoolizados? Percebendo a falta de possibilidade de continuarem a noite tumultuando na delegacia, o bando começou a dispersar aos poucos, pois além de não receberem o menor acolhimento de nossa parte, ouviram que seriam presos por vandalismo.  
Poucos restaram, entre eles aquele que provavelmente incitara o grupo. Gritava o próprio nome com a língua enrolada, dizendo que podiam prendê-lo e não esclarecia a razão de sua presença. Apenas repetia o seu suposto nome e gesticulava, sacudia o portão e enfiava os braços entre as barras de ferro, como se quisesse passar por entre elas. Apoiada nas grades estava uma mulher com aparente idade de 50 anos, cabelos descoloridos, maquiagem fortíssima já meio escorrida, com uma sombra azul quase anil colorindo as pálpebras, e um vestido curtinho, rodado, semelhante ao de colombina. Perguntei o que desejava. Respondeu que seu companheiro havia sumido. Evidente que eu quis saber se ela já havia ligado para casa, para verificar se ele não teria ido embora da festa para dormir. Ela prontamente explicou que não moravam juntos, que se conheceram na festa e depois ele sumira. Ela queria uma providência da polícia, que fosse realizada uma busca para encontrá-lo. Não preciso dizer que o nível de álcool no sangue da colombina devia estar altíssimo, julgando-se pelo cheiro que a envolvia e por suas pálpebras que teimavam em querer fechar. Não foi muito difícil convencê-la de que era melhor esperar pelo companheiro perdido em casa. Lentamente e com dificuldade para acertar os passos a colombina seguiu pela calçada, indo, talvez, para casa, ou em busca do pierrô sumido ou de um arlequim desgarrado, quem sabe. O portão permaneceu fechado, impedindo que o inferno invadisse a DP, pois já bastam os momentos em que isso ocorre, não raras vezes, por necessidade premente.    

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Olhos verdes.




Saímos para cumprir um mandado. A tarde estava abafada e úmida. Chegamos ao casebre, e um homem velho nos atendeu. No interior, numa cama de casal, duas mulheres que dormiam despertaram ao entrarmos. O ar naquele lugar era irrespirável. A distância entre as tábuas do chão permitia ver que logo abaixo havia um solo úmido, de onde exalava cheiro de esgoto. As buscas iniciaram percorrendo os cantos do cubículo destinado à cozinha. Sobre o fogão havia panelas com restos de comida do almoço, fermentando com o calor e atraindo a presença de moscas. O Velho tossia muito, assim como uma das mulheres, segundo eles, em razão de asma. Mais provável uma tuberculose, em vista da desnutrição. Nós, ali, respirando o mesmo ar viciado e saturado pelo mau cheiro. O esgoto da casa corria para uma vala rasa, que transbordara durante as fortes chuvas que caíram na região. Por isso, o terreno ficara coberto por uma fina camada de excrementos  fluidificados. Era difícil a revista do local; era nojento mexer em qualquer coisa lá. Em seguida chegaram três crianças, filhos de uma das mulheres. Um dos pequenos começou a chorar, assustado com a nossa presença. A mãe mandou que sentassem em um degrau. Abaixei para conversar com eles, tentar acalmá-los. Deparei com  três lindos pares de olhos verdes a me fitar, com a inocência peculiar das crianças, vivam onde viverem. Ali era a casa delas. Sobre o fogão, a comida em fermentação que comeriam. Aquela mãe que tossia era o único porto seguro que conheciam. Estavam brincando na margem do rio, quando alguém avisou que fossem para casa; e para lá correram, sem entender o que acontecia. Passado o susto inicial, logo já estavam à vontade, apesar da nossa presença, encantados com a viatura. Receberam alguma atenção nossa e foram acalmando. Dava para perceber que aquelas crianças haviam tocado o coração de cada um de nós, embora não pudéssemos demonstrar abertamente. Resolvemos ir embora, pois nada havia ali. Porta fria, mas o coração febril, apertado. Da viatura olhei novamente para as três e só pude pensar onde estava Deus. Vida de polícia.... Alguém quer experimentar?

domingo, 2 de setembro de 2012

Um, dois, três, ladrão!! Brincar de esconde-esconde deu cana boa!!


Pois foi assim, numa tranquila tarde de um feriado, num plantãozinho básico. Estávamos na DP, quando tocou o celular da Volante. Meu parceiro atendeu. Do outro lado da linha a proprietária de um estabelecimento comercial local, que, durante a madrugada, havia sido arrombado pela segunda vez na mesma semana. Muito nervosa, pedia ajuda, relatando estar com serralheiros colocando grades na loja, e haver um sujeito parado na calçada observando os trabalhos. Relatou que esse trajava uma camisa idêntica a uma das que haviam sido furtadas da vitrine na madrugada. O colega – que era cliente da loja –  explicou que não poderíamos agir apenas em função da semelhança entre a camisa furtada e a usada pelo sujeito; disse que iríamos dar uma circulada e passaríamos na loja. Ao chegarmos lá, soubemos que o desconhecido já havia saído do local, acompanhado de outro elemento. A partir da descrição dada pela comerciante, visualizamos um deles, que se deslocara até um ponto de ônibus, distante uns 200 metros, em uma transversal à rua da loja. Trafegamos lentamente até ele e resolvemos abordá-lo. A criatura estava na “paz”, sentado em uma pedra, olhos congestionados e não se alterou diante da nossa chegada. Estava sem identidade e nos forneceu o nome  completo, endereço, nome da mãe, data de nascimento, num ar de total inocência. Admitiu ter “fumado um” e que estivera na frente da loja para observar o trabalho dos serralheiros. Sem termos mais nada para fazer ali, entramos na viatura, deixando o rapaz no local. Meu parceiro, meio ninja, apenas disse: – Tinha um cara, do outro lado da rua, que saiu de fininho quando chegamos. Era o outro. Entrou naquela casa logo ali. Vou te mostrar.
Dei-me conta de que eu tinha fixado o primeiro sujeito e não tinha visto o segundo. Fiquei irritada comigo, pois havia “comido mosca” durante a abordagem. Dizem que olhos de japonês são dois risquinhos, mas, evidentemente, isso não elimina a acuidade visual. Passamos, então, na tal casa, e lá estava o outro, sentado dentro do pátio. Nada podíamos fazer. Fiquei frustrada com a situação. Retornamos à loja. Meu colega foi falar com a  proprietária, e eu resolvi caminhar até a esquina, para visualizar a casa e ver se o sujeito havia saído para a rua novamente. Como eu queria saber qual era o plano daqueles dois! Na esquina, espiei, como uma criança brincando de esconde-esconde. Não queria ser vista pelos dois sujeitos.
Os transeuntes devem ter achado estranho o meu comportamento, encostada no imóvel da esquina, espiando a rua transversal. Para minha surpresa, visualizei os dois rapazes juntos no ponto de ônibus. O malandro havia saído do ferrolho! Voltei correndo para a viatura chamando o meu dupla. Ele não sabe, mas naquele momento me senti com oito anos e prestes a gritar: – Um, dois três, ladrão! Bati! – como fazia quando brincava de esconder. Num piscar de olhos, já estávamos ao lado do segundo sujeito, que carregava uma mochila e já retornava para a casa onde o havíamos visto anteriormente. Meu colega pediu que ele parasse para conversarmos. Descemos, encaminhamos o suspeito para a calçada e pedimos seus documentos. Quando meu dupla pediu para que ele abrisse o casaco, eis o que apareceu por baixo: dois outros casacos, iguais em cor e modelo. Não estava tão frio para ele estar vestido como uma cebola, trajando tantas peças sobrepostas, estranhamente iguais e com aparência de novíssimas. Pedimos que mostrasse o conteúdo da mochila. Ao abri-la, vimos que havia várias peças de roupas. Cada peça trazia a etiqueta com o preço. Gostei do sorriso que brotou no rosto do meu parceiro. Um misto de satisfação e humor, pois, para nós, chegava a ser engraçado flagrar a criatura portando tudo aquilo e, ainda mais, em frente à própria residência. Como havíamos constatado ser  menor de idade, atravessei a rua e fui chamar a mãe dele. Da porta de entrada deu para ver que a sala era usada como brechó. Acho que o nosso “jovem cliente” estava querendo entrar para o comércio de roupas, inspirado na atividade comercial da mãe. O resto da história correu como costuma sempre que o autor é adolescente. Tudo devidamente registrado em conformidade com a lei, inclusive o relato sobre a participação do outro envolvido, que, aliás, vendo a cena na rua, desapareceu do ponto de ônibus quase num passe de mágica. Escafedeu-se! Foi um bom trabalho, com resposta quase imediata à vítima, que recuperou uma boa parte de suas mercadorias furtadas. Nós, policiais, pela sensação de dever cumprido, ganhamos o dia. O largo sorriso juvenil do meu colega, ao comentar os fatos, evidenciava a satisfação que sentia. E, na minha fisionomia, talvez estivesse presente a expressão da infância, ao bater alguém antes que chegue ao ferrolho. Pois é, em meio às agruras do trabalho policial, ainda conseguimos sorrir: ou por conta da imaginação divertida; ou da operação exitosa, afinal, é muito bom ser feliz trabalhando. Mas eu só quis dizer, em homenagem ao meu querido amigo e ex-dupla da Volante, um policial dedicado e ser humano que amo como a um filho.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Rebuliço no jardim.



Em seus vasos no jardim, preguiçosamente instaladas, flores e verdes num silêncio profundo, como acontece em todo o mundo.
De repente um grito: - Ela vem vindo! Vamos fingir que estamos dormindo!
Equipada com tesoura, vassoura, regador e pá, chega Maricota ao jardim e logo percebe o ar de indiferença forçada em suas plantinhas amadas. Margaridinha virou seus ramos e flores para outro lado, fingindo não perceber a chegada da jardineira, sempre tão faceira. Azaleia fingiu sono, ensaiando um cochilo; enquanto os gerânios cochichavam uns com os outros, fingindo analisar seus pistilos. Outras plantas, mais tímidas, assistiam a cena sem qualquer manifestação, contendo a admiração.
Sem rodeios, Maricota foi logo cumprimentando e em seguida perguntando:
- Bom dia, queridas! Estão com saudades de mim?
A azaleia, majestosa e muito sem querer se pôs a  responder:
- Nem pensar! E hoje é domingo, estamos saindo para o jasmim visitar.
Percebendo um certo ar de ressentimento, dona Maricota tentou convencer:
- Mas pensei muito em vocês, em cuidá-las outra vez.
A flor-de-mel, com um ar aborrecido esbravejou num tremido:
- Não queremos nos arrumar, deixa o vento estragar!
Tentando uma conciliação, Maricota deu uma explicação.
- Mas é preciso, a primavera vai chegar! Vocês todas vão gostar!
A malva, muito biliosa, tratou de retrucar:
-Por que tanto interesse? Passavas e nem nos olhavas! Florescemos a valer para nos olhares outra vez.
Maricota, sempre muito persistente, a irritada malva acariciou e a todas com simpatia explicou:
- Sinto muito, minhas lindas, eu estava muito cansada, sem tempo pra quase nada.
O pingo-de-ouro, antevendo seu destino, berrou como um militar em guerra.
- Mas em nós não tocas não, chega pra lá com esta mão e com este baita tesourão!
A tesoura, muito meiga e constrangida, tratou de amenizar.
-Vou cortar só um pouquinho, mas como se fosse um carinho!
A pá de lixo, costumeiramente muito metida, resolveu se intrometer. Olhando para a flor–de-mel exclamou a descrever:
-Céus como estás escabelada! Galhos secos e flores misturadas!
Maricota, examinou aos gerânios e a um deles perguntou:
- E que bichinhos são estes, grudados nos teus raminhos?
Com um ar triste a pobre flor do gerânio explicou.
- É cochonilha branquinha, que me deixa bem magrinha.
Compadecida, Maricota sentenciou:
- Então vamos limpar, para você hidratar.
A vassoura, muito solícita, foi logo se pronunciando:
- Prometo que só vou parar, quando o jardim embelezar.
Maricota ia fazendo a limpeza nos gerânios, limpando as cochonilhas, que muito a contra gosto, desgrudavam dos ramos da plantinhas. Enquanto limpava a todas falava:
- São minhas preferidas e sempre as mais queridas!
A tesoura, com voz levemente rouca e melosa, pedia licença para cortar os galhos secos das agitadas plantinhas chorosas. As violetas, muito frágeis e dengosas, logo cederam ao carinho da tesoura, que afirmava não ser dolorosa.
- Se é assim mesmo, deixamos, mas se doer te avisamos - diziam elas em sua meiguice.
E a tesoura ia cortando, muito disposta confortando. Folhas secas e amarelas teriam que sair delas.
- Não vai doer não, todas vão ficar limpinhas e só com as folhas verdinhas.
Ao ver seu vaso arrastado margaridinha gritou:
- Ai, credo, ela vai me trocar de lugar, para onde vai me levar!?
A vassoura, muito segura, tratou de ser categórica.
- Calma, margaridinha, só quero fazer uma limpezinha, o teu vaso está muito sujo, tem até um caramujo.
Azaleia, cheia de indignação, teve um ataque de tosse. Pediu à Maricota mais consideração
- Cof! Cof! Larga essa vassoura! Te prefiro com a tesoura!
A pá que era de pouca fala, mas muito metida, interveio, querendo se meter no meio.
Mas a vassoura ralhou, pois a pá se engasgou.
- Calma, dona azaleia, é preciso cuidar, para muito limpo ficar! Eu estou gastando as minhas cerdas de tanto esfregar e você não para de reclamar!
Depois de tanto trabalho, chão limpo, galhos e folhas secas ensacados, o regador, que até ali era mero observador, resolveu soltar o verbo e como um mestre de cerimônia anunciou o encerramento com toda a parcimônia.
- Agora para finalizar vou molhar para hidratar. Para cada menina, água com vitamina!
Maricota, cheia de orgulho de tão bom resultado, perguntou ansiosa, olhando para todo lado:
- E agora minhas lindinhas, que tal, se sentem limpinhas?
Muitas vozes responderam de cada modo diverso, que se sentiam muito bem, as mais lindas plantas do universo.
Mas eis que um grito de socorro ecoa  do saco plástico, fazendo Maricota, seus equipamentos e as plantas levar um susto fantástico.
Correndo em direção ao saco, Maricota olhou para dentro dele e perguntou quem gritava, pois da voz se admirava.
- Somos nós, os galhos e as folhas secas, quem mais poderia ser? Tiraste a nossa moradia, pensamos que isso não aconteceria. Vais nos mandar embora, colocando-nos fora?
Maricota sorrindo acalmou o monte ensacado.
De jeito nenhum, vocês são importantes, só não ficarão onde estavam antes. Misturados com minhocas farão um belo composto, pelo qual as plantas têm muito gosto!
E assim com todos contentes encerrou o rebuliço, mas eu só quis dizer isso.


Da criança criativa que sobreviveu em mim, apesar dos pesares, para  as crianças criativas,  ainda crianças, apesar dos pesares.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ponderações


Estou em processo de despedida da localidade onde iniciei minha jornada como policial. Dizer adeus aos colegas, aos colegas amigos e aos meus loucos queridos da cidade, que fizeram parte dos meus plantões, não é fácil. A sensação de vazio invade a alma, a incerteza aperta a garganta, de onde quase sai um pedido de –venham comigo! Ah! Como eu gostaria de não ter que mudar, embora a mudança seja desejada! Contraditório, não? Pois é, mas lá conheci a realidade policial e um mundo, como muitas vezes já expressei, diferente daquele de outras fases da minha vida. Lá vivi momentos muito bons, muitos risos, assim como muitas angústias, que valeram mais que uma disciplina acadêmica. A sensação de perda ocorre porque essa acontece mesmo. Encerrar um período dá essa sensação, pois, seja lá como for, há algo deixado, sem que jamais possa ser resgatado. Não há resgate quando o retorno evidencia grandes diferenças. Se eu retornar depois de um período, o que encontrarei? Alguns terão ido, outros terão vindo, e o cenário terá, também, muitas diferenças. E tampouco seremos iguais. E tudo faz parte da composição da vida; é assim que acontece. Início e término de fases, sentimentos para serem avaliados e expectativas quanto à nova fase; cada coisa em seu tempo e lugar. Quanto aos sentimento, sempre gosto de frisar que o policial é um dos profissionais que mais disfarça o que sente, guarda seus sentimentos em um canto, mas deles não consegue fugir na solidão de uma noite insone. E as marcas ficam espalhadas pelo rosto, acumulando-se, e muitas vezes sendo expressas por uma fala amarga sobre os eventos da vida. Percebo isso e luto contra, não quero mudar a minha forma original, não quero que os demais mudem também. Quero ser a acolhida de quem necessita, quero ter a palavra terna para quem me procura, quero ser humana como creio que todos devam ser. Mudei muito, não há como negar. Fiz-me mais firme, mais resistente e mais controlada, mas meu caráter continua essencialmente o mesmo, e até o meu mau humor matinal continua sendo interrompido apenas pelo café-da-manhã. Algumas coisas permanecem: são marcas registradas. Agora novos caminhos se abrem e eu quero percorrê-los, digo seguramente que o preciso fazer. Sei que mais tarde encontrarei estes mesmos colegas em algum lugar qualquer, e haverá muita fraternidade no encontro. Sobre isso preciso abrir parênteses explicativos.
Trabalhei muito anos como professora, e os reencontros esporádicos com ex-colegas não foram de muita fraternidade. Diria que neles havia uma certa frieza, um distanciamento, salvo naqueles casos em que tivesse ocorrido uma aproximação maior, ultrapassando o contexto profissional; filhos que conviviam bem, maridos em clima de camaradagem, convites para jantar reunindo as famílias, eticetera. Pois bem, entre policiais, há reencontros mais efusivos, salvo alguns casos pontuais. Ouvindo um colega aqui e lá, percebi que a explicação talvez se funde no fato de sermos considerados, por muitos, “párias” da sociedade. Somos uma categoria profissional estigmatizada por atos do passado. As condutas mudaram, os tempos são outros, mas o estigma permanece. A sociedade recorre a nós de acordo com a necessidade; mas nos imputa a responsabilidade das mazelas na segurança. Algumas vezes heróis, algumas vezes algozes, e tantas outras vezes quase marginais, segundo o entendimento geral. Nos tornamos muito próximos, embora a família de cada um seja mantida à parte. Creio ser uma forma de apoio e compreensão “sui generis”. Daí surge a expressão “família Polícia Civil”, num artifício de indução a crer que não estamos sós. Só polícia entende polícia, numa estranha relação, que perpassa da competitividade na convivência diária,  à proteção exacerbada em meio ao tiroteio. Uma relação instigante para estudo em vista da importância no contexto criado pelos próprios policiais. A Policia Civil que eu conheço é um bloco único. Independente da lotação somos colegas e solidários. Qualquer conduta diversa é um desvio. E a origem deste pensamento vincula-se à existência de uma Academia, de onde saem todos os policiais que lotarão as DPs do Estado. Desconheço qualquer policial para o qual os tempos de Academia não tenham sido uma etapa marcante. Piores e melhores momentos de cada um são narrativas presentes nas conversas entre colegas, independente do tempo decorrido. É o ponto em comum inicial e, por aí, muito mais haverá. Em cada Delegacia, uma realidade peculiar, íntima aos que nela trabalham. Há uma riqueza de experiências em cada um, que o afastamento transforma em perda. Estou perdendo num lugar e sei que ganharei em outro, pois é sempre assim. Mas eu só quis dizer.