quarta-feira, 27 de junho de 2012

Rebuliço no jardim.



Em seus vasos no jardim, preguiçosamente instaladas, flores e verdes num silêncio profundo, como acontece em todo o mundo.
De repente um grito: - Ela vem vindo! Vamos fingir que estamos dormindo!
Equipada com tesoura, vassoura, regador e pá, chega Maricota ao jardim e logo percebe o ar de indiferença forçada em suas plantinhas amadas. Margaridinha virou seus ramos e flores para outro lado, fingindo não perceber a chegada da jardineira, sempre tão faceira. Azaleia fingiu sono, ensaiando um cochilo; enquanto os gerânios cochichavam uns com os outros, fingindo analisar seus pistilos. Outras plantas, mais tímidas, assistiam a cena sem qualquer manifestação, contendo a admiração.
Sem rodeios, Maricota foi logo cumprimentando e em seguida perguntando:
- Bom dia, queridas! Estão com saudades de mim?
A azaleia, majestosa e muito sem querer se pôs a  responder:
- Nem pensar! E hoje é domingo, estamos saindo para o jasmim visitar.
Percebendo um certo ar de ressentimento, dona Maricota tentou convencer:
- Mas pensei muito em vocês, em cuidá-las outra vez.
A flor-de-mel, com um ar aborrecido esbravejou num tremido:
- Não queremos nos arrumar, deixa o vento estragar!
Tentando uma conciliação, Maricota deu uma explicação.
- Mas é preciso, a primavera vai chegar! Vocês todas vão gostar!
A malva, muito biliosa, tratou de retrucar:
-Por que tanto interesse? Passavas e nem nos olhavas! Florescemos a valer para nos olhares outra vez.
Maricota, sempre muito persistente, a irritada malva acariciou e a todas com simpatia explicou:
- Sinto muito, minhas lindas, eu estava muito cansada, sem tempo pra quase nada.
O pingo-de-ouro, antevendo seu destino, berrou como um militar em guerra.
- Mas em nós não tocas não, chega pra lá com esta mão e com este baita tesourão!
A tesoura, muito meiga e constrangida, tratou de amenizar.
-Vou cortar só um pouquinho, mas como se fosse um carinho!
A pá de lixo, costumeiramente muito metida, resolveu se intrometer. Olhando para a flor–de-mel exclamou a descrever:
-Céus como estás escabelada! Galhos secos e flores misturadas!
Maricota, examinou aos gerânios e a um deles perguntou:
- E que bichinhos são estes, grudados nos teus raminhos?
Com um ar triste a pobre flor do gerânio explicou.
- É cochonilha branquinha, que me deixa bem magrinha.
Compadecida, Maricota sentenciou:
- Então vamos limpar, para você hidratar.
A vassoura, muito solícita, foi logo se pronunciando:
- Prometo que só vou parar, quando o jardim embelezar.
Maricota ia fazendo a limpeza nos gerânios, limpando as cochonilhas, que muito a contra gosto, desgrudavam dos ramos da plantinhas. Enquanto limpava a todas falava:
- São minhas preferidas e sempre as mais queridas!
A tesoura, com voz levemente rouca e melosa, pedia licença para cortar os galhos secos das agitadas plantinhas chorosas. As violetas, muito frágeis e dengosas, logo cederam ao carinho da tesoura, que afirmava não ser dolorosa.
- Se é assim mesmo, deixamos, mas se doer te avisamos - diziam elas em sua meiguice.
E a tesoura ia cortando, muito disposta confortando. Folhas secas e amarelas teriam que sair delas.
- Não vai doer não, todas vão ficar limpinhas e só com as folhas verdinhas.
Ao ver seu vaso arrastado margaridinha gritou:
- Ai, credo, ela vai me trocar de lugar, para onde vai me levar!?
A vassoura, muito segura, tratou de ser categórica.
- Calma, margaridinha, só quero fazer uma limpezinha, o teu vaso está muito sujo, tem até um caramujo.
Azaleia, cheia de indignação, teve um ataque de tosse. Pediu à Maricota mais consideração
- Cof! Cof! Larga essa vassoura! Te prefiro com a tesoura!
A pá que era de pouca fala, mas muito metida, interveio, querendo se meter no meio.
Mas a vassoura ralhou, pois a pá se engasgou.
- Calma, dona azaleia, é preciso cuidar, para muito limpo ficar! Eu estou gastando as minhas cerdas de tanto esfregar e você não para de reclamar!
Depois de tanto trabalho, chão limpo, galhos e folhas secas ensacados, o regador, que até ali era mero observador, resolveu soltar o verbo e como um mestre de cerimônia anunciou o encerramento com toda a parcimônia.
- Agora para finalizar vou molhar para hidratar. Para cada menina, água com vitamina!
Maricota, cheia de orgulho de tão bom resultado, perguntou ansiosa, olhando para todo lado:
- E agora minhas lindinhas, que tal, se sentem limpinhas?
Muitas vozes responderam de cada modo diverso, que se sentiam muito bem, as mais lindas plantas do universo.
Mas eis que um grito de socorro ecoa  do saco plástico, fazendo Maricota, seus equipamentos e as plantas levar um susto fantástico.
Correndo em direção ao saco, Maricota olhou para dentro dele e perguntou quem gritava, pois da voz se admirava.
- Somos nós, os galhos e as folhas secas, quem mais poderia ser? Tiraste a nossa moradia, pensamos que isso não aconteceria. Vais nos mandar embora, colocando-nos fora?
Maricota sorrindo acalmou o monte ensacado.
De jeito nenhum, vocês são importantes, só não ficarão onde estavam antes. Misturados com minhocas farão um belo composto, pelo qual as plantas têm muito gosto!
E assim com todos contentes encerrou o rebuliço, mas eu só quis dizer isso.


Da criança criativa que sobreviveu em mim, apesar dos pesares, para  as crianças criativas,  ainda crianças, apesar dos pesares.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ponderações


Estou em processo de despedida da localidade onde iniciei minha jornada como policial. Dizer adeus aos colegas, aos colegas amigos e aos meus loucos queridos da cidade, que fizeram parte dos meus plantões, não é fácil. A sensação de vazio invade a alma, a incerteza aperta a garganta, de onde quase sai um pedido de –venham comigo! Ah! Como eu gostaria de não ter que mudar, embora a mudança seja desejada! Contraditório, não? Pois é, mas lá conheci a realidade policial e um mundo, como muitas vezes já expressei, diferente daquele de outras fases da minha vida. Lá vivi momentos muito bons, muitos risos, assim como muitas angústias, que valeram mais que uma disciplina acadêmica. A sensação de perda ocorre porque essa acontece mesmo. Encerrar um período dá essa sensação, pois, seja lá como for, há algo deixado, sem que jamais possa ser resgatado. Não há resgate quando o retorno evidencia grandes diferenças. Se eu retornar depois de um período, o que encontrarei? Alguns terão ido, outros terão vindo, e o cenário terá, também, muitas diferenças. E tampouco seremos iguais. E tudo faz parte da composição da vida; é assim que acontece. Início e término de fases, sentimentos para serem avaliados e expectativas quanto à nova fase; cada coisa em seu tempo e lugar. Quanto aos sentimento, sempre gosto de frisar que o policial é um dos profissionais que mais disfarça o que sente, guarda seus sentimentos em um canto, mas deles não consegue fugir na solidão de uma noite insone. E as marcas ficam espalhadas pelo rosto, acumulando-se, e muitas vezes sendo expressas por uma fala amarga sobre os eventos da vida. Percebo isso e luto contra, não quero mudar a minha forma original, não quero que os demais mudem também. Quero ser a acolhida de quem necessita, quero ter a palavra terna para quem me procura, quero ser humana como creio que todos devam ser. Mudei muito, não há como negar. Fiz-me mais firme, mais resistente e mais controlada, mas meu caráter continua essencialmente o mesmo, e até o meu mau humor matinal continua sendo interrompido apenas pelo café-da-manhã. Algumas coisas permanecem: são marcas registradas. Agora novos caminhos se abrem e eu quero percorrê-los, digo seguramente que o preciso fazer. Sei que mais tarde encontrarei estes mesmos colegas em algum lugar qualquer, e haverá muita fraternidade no encontro. Sobre isso preciso abrir parênteses explicativos.
Trabalhei muito anos como professora, e os reencontros esporádicos com ex-colegas não foram de muita fraternidade. Diria que neles havia uma certa frieza, um distanciamento, salvo naqueles casos em que tivesse ocorrido uma aproximação maior, ultrapassando o contexto profissional; filhos que conviviam bem, maridos em clima de camaradagem, convites para jantar reunindo as famílias, eticetera. Pois bem, entre policiais, há reencontros mais efusivos, salvo alguns casos pontuais. Ouvindo um colega aqui e lá, percebi que a explicação talvez se funde no fato de sermos considerados, por muitos, “párias” da sociedade. Somos uma categoria profissional estigmatizada por atos do passado. As condutas mudaram, os tempos são outros, mas o estigma permanece. A sociedade recorre a nós de acordo com a necessidade; mas nos imputa a responsabilidade das mazelas na segurança. Algumas vezes heróis, algumas vezes algozes, e tantas outras vezes quase marginais, segundo o entendimento geral. Nos tornamos muito próximos, embora a família de cada um seja mantida à parte. Creio ser uma forma de apoio e compreensão “sui generis”. Daí surge a expressão “família Polícia Civil”, num artifício de indução a crer que não estamos sós. Só polícia entende polícia, numa estranha relação, que perpassa da competitividade na convivência diária,  à proteção exacerbada em meio ao tiroteio. Uma relação instigante para estudo em vista da importância no contexto criado pelos próprios policiais. A Policia Civil que eu conheço é um bloco único. Independente da lotação somos colegas e solidários. Qualquer conduta diversa é um desvio. E a origem deste pensamento vincula-se à existência de uma Academia, de onde saem todos os policiais que lotarão as DPs do Estado. Desconheço qualquer policial para o qual os tempos de Academia não tenham sido uma etapa marcante. Piores e melhores momentos de cada um são narrativas presentes nas conversas entre colegas, independente do tempo decorrido. É o ponto em comum inicial e, por aí, muito mais haverá. Em cada Delegacia, uma realidade peculiar, íntima aos que nela trabalham. Há uma riqueza de experiências em cada um, que o afastamento transforma em perda. Estou perdendo num lugar e sei que ganharei em outro, pois é sempre assim. Mas eu só quis dizer.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Lampejo.

Ela estava sentada em sua cadeira preferida, que a fazia balançar suavemente no compasso do tique-taque do relógio. Os cabelos lisos e prateados, presos por um delicado passador. A sua frente a madeira queimava na lareira, trazendo o calor aconchegante ao seu frágil corpo. As rugas, que lhe marcavam toda a face, não escondiam um certo ar maroto e feliz. Entregue às lembranças e à imaginação, percorria caminhos, tal como fizera outrora e imaginava-se em outros ainda por conhecer. O corpo não a levava mais aonde queria ir, mas a imaginação e as lembranças sim. Era ela, a imaginação, seu último contato com o muito ainda por conhecer e fazer. A incoerência biológica, imposta ao seu corpo, a envelhecera; porém esquecera de avisar ao espírito que envelhecesse também. Há muito tempo um amigo, ao ouvir suas narrativas, a havia chamado de espírito jovem. Ela ainda possuía essa característica, fruto de um insaciável amor pela vida. Queria experimentar, conhecer, sem admitir as imposições do tempo; mas este vencera seu corpo e poupara seu espírito, o qual a impulsionava a ter toda a emoção que desejava, sem sair de sua cadeira. Suavemente adormeceu, num cenário muito azul e brilhante...Mas eu só quis dizer.

domingo, 18 de março de 2012

Retalhos da Adolescência.


Muitas vezes, tenho lembrado de minha adolescência, de amigos e de colegas com os quais convivi e até reencontrei depois de muitos anos. Ainda recordo de características de alguns deles e de momentos de convivência com acontecimentos marcantes. É bem verdade que, naquela fase, eu não tinha tempo para analisar muito; estava mais focada em  tirar boas notas no colégio, para não ser xingada em casa, e em cuidar do coração, sempre apaixonado. E quantas paixões! Pouco duradouras, bem verdade, mas que faziam a vida ser colorida e repleta de borboletas. A vida social acontecia toda em função do colégio, pois naquele tempo, ocorriam bailes e reuniões dançantes, organizadas pelo grêmio estudantil e pela direção da escola. Todas as atividades esportivas e comemorativas desfechavam num acontecimento dançante. Nas vésperas da festa, quase deslizávamos pelos corredores do colégio, tal a euforia com o acontecimento que se aproximava. O coração ficava aos pulos, só em pensar se os nossos alvos de afeto nos tirariam para dançar na festa. Tudo meio platônico e, como tal, idealizado, o que resultava numa grande emoção ou numa decepção. As mães acompanhavam as filhas e ficavam reunidas na mesma mesa, para conversar e vigiar.
No dia de aula seguinte, após o evento, passávamos cochichando com as melhores amigas em plena sala de aula. Olhares sonhadores ou até olhos inchados, pelo choro triste da desilusão amorosa, faziam parte do momento. Fofoquinhas sobre esta ou aquela colega também compunham o contexto. Mas parecia ser tudo muito dinâmico, e o momento logo ficava para trás, assim como os amores tão devastadores, quanto efêmeros. Mudei de escola para cursar o científico (assim era a denominação na época). Fui para o Colégio Júlio de Castilhos. Confesso que queria muito esta mudança. Mesmo podendo chocar os ex-colegas do Cruzeiro, digo que já estava saturada daquela mesmice, queria mudar de escola, conhecer novas pessoas. A vida na minha casa era um verdadeiro tédio. E eu, talvez por isso, adorava mudanças. Mudei e gostei mais do que poderia imaginar nos meus delírios adolescentes. Lá eu não era nem filha, nem irmã de alguém, como havia sido até então; era simplesmente uma aluna. Meu rito de passagem para uma adolescência com vistas ao amadurecimento ocorreu ali. Conquistei a minha individualidade, meio perdida e meio deslumbrada. Estudar no Julinho em tempos de ditadura militar tinha o seu glamour, fazia com que me sentisse uma rebelde, sem causa obviamente, mas, ainda assim, rebelde. Cá entre nós, política não era o meu forte. Aliás, acho que o de ninguém, em vista do grande tabu criado pelo governo militar. Protestos contra o uso obrigatório do uniforme foram o máximo de ativismo que pudemos experimentar. Foi assunto, durante muitos dias, a cena dantesca dos Pedro e Paulo (assim eram chamados) saltando de seus veículos com cassetetes nas mãos, para se pôr em perseguição aos alunos que se negavam a entrar na escola. Meninos e menina,s entre 14 e 18 anos, fugindo aos gritos, em seus rejeitados uniformes amarelo-ouro e marrom. Apesar do absurdo, aquilo tudo nos rendeu lembranças e conversas emocionadas. Lembro do diretor do turno da tarde, horário em que acontecera o protesto, em estado de desespero pelo episódio. Jurava não haver chamado o policiamento. Recolhidos ao interior do colégio, ficamos por um longo tempo olhando, através dos vidros, os policiais, enfileirados, cobrindo toda a frente do prédio, como a transmitir a mensagem “saiam e verão o que lhes acontece”. Não saímos, lógico! Depois de um tempo, fomos para as respectivas salas de aula. O colégio, que tinha fama de ser reduto de alunos comunistas, nem grêmio estudantil possuía mais; somente tinha por alunos uma legião de adolescentes rebeldes, em busca de um pouco de aventura, tal como há em todos os tempos. E ríamos, e brincávamos, e namorávamos de uma forma tão leve, que passaríamos por retardados aos olhos dos adolescentes de hoje.
O bairro onde morava deixou de ter o significado de vida social para mim. Passou a ser somente onde estava localizada a minha casa. A família, extremamente conservadora, era um ponto de referência, e eu a sentia, muitas vezes, como um serviço de carceragem. Era o que me mantinha dentro dos padrões convencionais. Mas digo, com toda a sinceridade, que o que eu queria naquele tempo era ganhar o mundo, ser livre, embora nem saiba explicar o que entendia por liberdade. Eu queria poder pensar diferente e até este direito me era tirado. Cedo descobri que pensar e não expor meus pensamentos era a melhor forma de preservar a minha liberdade de ser e sentir. Não conseguia pensar como queriam que eu pensasse e, por esta razão, era constante alvo de recriminações em casa. Até hoje me questiono sobre os motivos. Aprendi a mostrar de mim apenas aquilo que sabia não provocar conflitos. Foi a forma que encontrei de preservar a minha alegria e individualidade, e de ter um mundo no qual as minhas idéias sobrevivessem. Dele os contrários eram merecidamente excluídos. Era como ter vida dupla. Uma em família e outra no mundo, longe dela. E, do meu jeito, consegui sobreviver ao afogamento pelas lágrimas de adolescente, em fuga da total falta de um diálogo familiar franco. Criei minhas asas gradativamente. Aonde elas me levaram? À conquista de ser, dizer, chorar e rir, sem interrupções de comando. Alguns devem se pôr a imaginar que criatura difícil fui. Podem esquecer. Acredito que a austeridade daquele tempo, quando alguns pais reinavam absolutos em seus lares, transformasse em problema o filho que tivesse alguma personalidade. Respeito era o chamado acatamento das vontades paternas. Mas, na minha casa, a rigidez era visivelmente maior do que na casa das minhas colegas. Espontaneidade era sinônimo de falta de trato social, falta de juízo e de tantas outras coisas consideradas inadequadas na minha família.  Muitas vezes, reflito sobre o quanto a repressão emocional deixa marcas em nossas vidas, levando até ao desespero, se a inteligência não apontar um caminho alternativo que permita o desabrochar da personalidade. Com o tempo, já tendo constituído minha família, passei a dialogar mais francamente com meus pais. Eu não dependia deles, e o perceptível medo da solidão os fez ficarem mais contidos no quesito austeridade. Mas a minha adolescência já havia ido embora, sem uma vez sequer ter sentido ser algo mais que uma preocupação. Não dói mais. Mas eu só quis dizer.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Acústica


Quando comecei a trabalhar na polícia, o chefe do plantão, policial experiente no registro de ocorrências, foi encarregado de treinar os novatos. Eu ficava fazendo os registros, enquanto o colega orientava. Numa das noites, entrou um velhinho do tipo desgastadíssimo, que, se dirigindo a mim, expôs que queria fazer um registro. Não me lembro do fato que o levou até a DP. Pedi sua identidade, ao que ele não atendeu. Repeti o pedido enquanto ele me olhava fixamente. Vendo os movimentos de lábios, explicou que quase não podia me ouvir. Daí teve início um verdadeiro show acústico no interior do plantão:
-O SENHOR TEM AÍ SUA IDENTIDADE?
-Ah, a senhora quer a minha identidade?
-SIM, PODE ME PASSAR SUA IDENTIDADE?
-Entendi. Não tenho.
-ENTÃO ME DIGA O SEU NOME COMPLETO.
-QUAL A SUA DATA DE NASCIMENTO?
Digitados os dados, o sistema apontou um indivíduo que possivelmente seria o velhinho surdo. Para confirmar, perguntei:
-QUAL O NOME DA SUA MÃE?
-Argelina.
-O NOME DA SUA MÃE É ALGELINDA?
Com um meio sorriso, ele respondeu:
-É, Argelina.
Eu, principiante e preocupada em não fazer registro errado, parti para o nome do pai do velhinho.
- O NOME DO SEU PAI É PEDRO? - Dando graças a Deus do progenitor ter um nome comum.
Meio inseguro, confirmou. Imaginei que o senhor Pedro devia ter ido desta para outra há um século, fato que quase o apagara da memória do filho. Resolvi refrescar-lhe a memória.
-O NOME DO SEU PAI É PEDRO E O DA SUA MÃE É ALGELINDA!
O velhinho estampou um meio sorriso e tornou a falar:
- É, Argelina.
Eu ia repetir o nome da mãe novamente, quando fui interrompida pelo plantonista, que, já impaciente, estivera o tempo inteiro ali, naquele plantão do tamanho de um ovo, assistindo a cena e ouvindo o meu exercício vocal. Apressado falou:
-Toca, toca pra frente o registro que é ele mesmo!
Irritada por estar sendo apurada por ele, virei e falei indignada no mesmo tom em que falara com o velhinho:
-MAS EU NÃO POSSO DEIXAR ELE MORRER SEM SABER DIZER O NOME DA MÃE DELE!!!!
Dei-me conta de que minha voz ecoara, e que até o velhinho surdo ouvira a exclamação.
O momento seguinte foi de silêncio absoluto, logo seguido da risada do plantonista.
Não saberia descrever o tamanho do meu constrangimento. Coisa de principiante, mas eu só quis dizer.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Resgatando o afeto


Entrei e olhei os rostos, procurando algum que me fosse familiar. Escolhi uma mesa de onde eu pudesse observar a porta. Lentamente puxei a cadeira, sentei e, de imediato, comecei a remexer no conteúdo da minha bolsa, buscando, naquele mar caótico, uma caneta. Se tivesse que esperar, precisaria me ocupar, quem sabe, escrevendo algumas linhas, para aproveitá-las em um texto novo. Nada de caneta, incrível! Desisti e comecei a olhar o cardápio que o garçom trouxera na minha chegada. As gurias logo chegariam! E o Claudio, será que viria também? Eu estava ali, inquieta como uma adolescente. Na verdade, naquele momento, eu era uma adolescente, pois meus pensamentos estavam voltados aos meus treze ou quatorze anos – tempo de ginásio. Sempre fico assim quando vou ao encontro dos colegas da adolescência. É como se abrisse uma janela no tempo e esta me permitisse retomar a leveza da juventude. Entrava um, entrava outro e nada de aparecerem. Olhei as horas e constatei estar havia cinco minutos ali. Mas que cinco minutos longos! Novamente, a porta se abriu e vi o Claudio. Um misto de alegria e serenidade tomou conta de mim. Quarenta anos se passaram desde a última vez em que nos vimos. Como explicar a insignificância desse tempo, em relação aos cinco minutos anteriormente esperados? Senti a alegria do reencontro, e a sensação de que há pouco estávamos sentados no muro do colégio, conversando durante o recreio. O reencontro desfez o espaço temporal, trazendo aquele sentimento de amizade e proximidade. Saudade? Acho que é só uma palavra que usamos por não sabermos expressar o que realmente sentimos. Penso ser familiaridade, quando nos sentimos tão próximos e à vontade, num reencontro após quarenta anos. O abraço, caloroso, cheio de “Claudio”. É, sempre foi assim, muito Claudio, como só ele sabia ser, e percebo que ainda sabe. Sentados frente-a-frente, comecei a falar, numa urgência de contar as últimas novidades da minha vida, como se ele soubesse alguma coisa dela. Como se houvéssemos conversado no dia anterior. Sobre a expressão “falar pelos cotovelos”, fui à exemplificação na medida exata. Tinha tanto para dizer, que realmente precisaria de cotovelos falantes. Mudamos em muitos aspectos. Vivemos nossas vidas na mesma cidade, sem um dia sequer termos nos encontrado. Cada um cuidando da própria vida, dos seus amores e seguindo sua caminhada. Envelhecemos, evidentemente. As indisfarçáveis marcas do tempo estavam presentes nos nossos rostos, mas ainda éramos nós, Claudio e Silvia, sentados no muro do colégio, rindo e conversando; ele, mais a observar. Esses momentos me fazem sentir como a vida é boa. Pequenas frações de tempo renovam, pela alegria que proporcionam. Minha tagarelice foi interrompida pela chegada da Lea e da Jeanne. Como não ficar feliz naquele momento? Posso dizer que estarmos ali era um presente. O meu dia havia sido difícil, com frustrações relacionadas ao trabalho, as quais ficaram esquecidas. A Jeanne, que fazia muito não via o Claudio, passou de imediato a indagá-lo, alegando que tinha que aproveitar a oportunidade para se atualizar sobre a vida dele, saber dos filhos, casamento, eticétera, eticétera. Foi divertido assistir! A Lea já estava mais inteirada, pois sempre manteve contato ao longo dos anos. Mas o Claudio tinha um compromisso e precisava ir embora. Nos despedimos, então. Lamentei, mas não fiquei triste. Ele iria se ausentar da minha vida por um espaço de tempo indeterminado, porém, insignificante a partir do momento em que nos reencontrássemos, tal como ocorrera com os quarenta anos. Percebi que, em qualquer tempo, ele continuaria sendo muito “Claudio”. Ele estava bem, isso é o que importava. Sozinhas, eu, Jeanne e Lea recomeçamos nossa conversa, que ainda se estendeu por algumas horas, insuficientes para tanto o que falar. Combinamos novo encontro para breve. Levantamos e lentamente saímos pela porta, como meninas com saias de preguinhas em tempo de colégio; a alma renovada pela certeza da vitória no desafio do tempo. No caminho para casa, pensei muito neles e no quanto vê-los me fizera bem. Realmente não é saudade. É uma retomada do afeto, sem resgate do passado; simplesmente assim. Somos o que somos no presente, e do passado só queremos o afeto que  não se extinguiu; se renova a cada encontro. Antes que o tempo me vença é melhor comunicar: - Claudio, Jeanne e Lea, que bom que estão na minha vida! Amo vocês! Mas eu só quis dizer.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Marcas no olhar.


Mais de um ano de trabalho e, conseqüentemente, muitos plantões. O que mudou?  Em mim, muitas mudanças. Definitivamente não sou a mesma de um ano atrás. Esse, no entanto, não é um comentário sobre o óbvio, pois me refiro a uma transformação, talvez, sutil à percepção de alguns; mas exacerbada ao meu sentir. Certa vez, uma amiga expressou a ideia de que, segundo o seu entendimento, o policial deveria ter o olhar sereno de um guarda florestal, tal como o meu. Achei graça e agradeci pelo estranho elogio. Não obstante a graça, suas palavras foram extremamente marcantes, pois freqüentemente as relembro. Observo atentamente os olhares que me cercam. Na DP, raros são os que transmitem esta serenidade. Sei que o meu olhar mudou, e agora reflete uma realidade vivenciada que, há um ano atrás, para mim, pertencia ao contexto distante que circula nos jornais e na televisão. Há uma realidade que todos sabemos existir, mas que só esporadicamente nos toca. Dela somos reféns e talvez por isso procuramos vê-la como típica de um outro mundo, mundo esse que tememos como crianças temem o “bicho papão”. Creio ser um mecanismo de defesa da nossa paz interior. Pois bem, o meu trabalho me coloca exatamente em meio ao que a maioria gostaria de ignorar. No mundo de “Alice no país das maravilhas”, onde tudo é cor e descobertas, o olhar serena. Na realidade de uma DP, nada é cor. Inexoravelmente encontramos o pior que o ser humano carrega em si, num desfile contínuo de agressividades, vilanias, desonestidades. São condutas que imprimem a desconfiança no olhar daqueles que, por decorrência do trabalho, contatam freqüentemente com elas. É difícil saber quem mente quando as partes presentes a nossa frente afirmam veementemente dizer a verdade. Aprender a não ter, nem demonstrar, empatia é um exercício necessário. Por vezes, propositalmente, procuramos criar um certo ar de empatia, pois, como estratégia, rende informações valiosas à eficiência do trabalho. Tudo isso faz de nós, policiais, profissionais especializados  numa lida nefasta, que deixa marcas no nosso olhar e na nossa expressão facial... É comum a atividade profissional deixar certas características em quem a exerce. Fui professora por um bom tempo e muitas vezes me flagro tendo preocupações que são consideradas estranhas no meu atual ambiente de trabalho. Uma mesinha com brinquedos para distrair crianças que acompanham os pais até a delegacia está lá. Não as quero em meio à bagunça que os pais promovem. Delegacia não é lugar de criança, mas os pais se agridem e elas vão junto, devido à falta de quem as fique cuidando em casa. Não raras vezes os PMs chegam à DP conduzindo o marido algemado e a mãe espancada. Esta, carregando um filho nos braços e um outro pela mão. Manter o controle diante do triste quadro é tarefa difícil. E o que pensar e fazer frente à fragilidade e o trauma das criancinhas reféns de uma família completamente desestruturada? Não há muita opção para aquele curto espaço de tempo tomado pelo registro da ocorrência. A mesinha com papéis e lápis de cor é um breve alento. As crianças ficam divididas entre brincar e permanecer junto da mãe. E a professora que ainda habita em mim procura, sem encontrar, uma solução aceitável para a situação. Os meus olhos passam a refletir descrença; descrença no mundo, na sorte, nos direitos individuais e em tantas outras possibilidades que são negadas aos gerados sem pedir. Um ano é uma vida de aprendizado. É tempo para conhecer o que não precisava existir. Mas eu só quis dizer.