quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Campana.

Saí para uma operação noturna em uma cidadezinha. A chuva havia dado trégua, mas o barro, em alguns pontos, era muito semelhante a um mingau. Às vezes pegajoso, grudava na sola do tênis. A campana era próxima a um riacho fedorento, onde o esgoto da cidade deságua. Estava escuro e havia uma umidade incômoda. Éramos quatro agentes, divididos em duplas posicionadas em diferentes pontos. A casa observada mostrava luz interna, visível pelas frestas das precárias janelas. Ninguém à vista, saindo ou entrando. Depois de um período de tempo fui dar uma caminhada, para ver se ouvia vozes na casa. Se fosse vista não haveria problema. Naquela cidade, eu era uma total desconhecida. A rua estava escura, e era difícil saber onde pisava. Das casas vinham vozes de crianças e de adultos e sons dos televisores ligados, que iam ficando para trás, dando lugar aos sons das casas seguintes, à medida em que o trajeto era percorrido. A casa alvo estava no mais absoluto silêncio. Passei lentamente em frente, ouvidos aguçados, olhos querendo ver através das paredes. Depois de um tempo retornei. Pés pesados de barro, pensamentos difusos cortando a escuridão. Lembrei de meu marido e de meus filhos naquele momento. O que sentiriam me imaginando ali. Melhor não saberem. Eu escolhi assim. No dia seguinte estaria novamente em casa, na luz.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Paradoxo.

À meia noite e meia tocou a campainha do plantão. Aberto o portão, entraram um homem e uma mulher, ambos de meia idade. O homem, semblante inexpressivo, absolutamente calado sentou-se no banco e ali ficou imóvel. A mulher, apoiada no balcão de atendimento, estendeu uma folha impressa aos plantonistas e sem rodeios expôs:

– Eu quero saber como eu posso usar isto contra ele. Ele diz que não pode nem sair na rua sem esse papel.

Os plantonistas verificaram se tratar de um indulto e perguntaram se a pessoa nominada no documento havia cometido algum crime no momento. Diante da negativa da mulher, pedem que a mesma informe quem seria o indultado. Para surpresa dos dois policiais plantonistas, a mulher respondeu ser seu companheiro. E, questionada sobre a razão de seu companheiro haver sido condenado, manteve a objetividade discorrendo calmamente: – Eu o denunciei porque abusou das minhas duas filhas, e daí ele ficou preso uns dois anos e meio.

– Pois é, senhora, ele já foi preso e recebeu indulto. Se ele não cometeu mais nenhum crime, está encerrado o caso. Mais alguma coisa? – explicou e perguntou um dos plantonistas.

– Então eu quero registrar uma ocorrência. – disse a mulher.

– Mas sobre o que, senhora? – pergunta o policial.

– É que eu estava cuidando dele, e as filhas vieram buscá-lo, e ele quis ir com elas. Ele faz hemodiálise e agora está no hospital. Eu acho que elas não estão cuidando bem da saúde dele.

Os plantonistas entreolharam-se numa comunicação muda sobre a total falta de entendimento da situação.

– Mas, senhora, que filhas? As suas? As que foram abusadas?

– Não, as dele, do casamento. Ele ainda é casado no papel com uma outra mulher. Até ia assinar a separação, mas as filhas o levaram embora. Eu dei treze anos da minha vida a ele, nós temos uma relação estável, e eu dependo do dinheiro dele para viver. Eu tenho muita dó dele, pois ele está doente. Ele ganha uma aposentadoria “boa”, e eu quero os meus direitos. O advogado disse que eu tenho direito, e me mandou registrar na delegacia que as filhas levaram ele.

Intrigado com o relato um dos policiais perguntou:

– E as suas filhas que sofreram abuso, são filhas dele também?

Diante da negativa da mulher o policial plantonista prosseguiu:

– Mas o que lhe importa se ele está sendo bem cuidado ou não? Já contou detalhadamente o caso ao seu advogado? Como pode querer trazer para a sua companhia e, ainda, cuidar de uma pessoa que abusou de suas duas filhas? Imagine o que elas sentem em relação a isso!

Rapidamente a mulher afirmou que as filhas já haviam perdoado o homem pelo mal que causara, e que não relatara maiores detalhes de sua conturbada relação ao advogado. Estupefatos os plantonistas enfatizaram que, antes de qualquer registro de fato, em tese, atípico, uma vez que não existia crime para registrar, ela deveria explicar com detalhes a sua situação ao advogado. Enquanto isso, o homem que a acompanhava, permanecia na mesma posição, inexpressivo, sentado no banco, quando muito fazendo alguns movimentos de concordância com a cabeça.

Agradecendo a orientação, a mulher garantiu que iria cedo da manhã ao advogado. Retirou-se da DP, seguida pelo homem, que aos olhos dos plantonistas mais parecia um espectro a acompanhá-la. Os plantonistas, já exaustos pelo adiantado da hora, ficaram olhando perplexos a saída da dupla.

O absurdo e o inusitado do acontecimento tiveram a propriedade de exterminar qualquer diálogo entre os dois policiais. Um deles apenas disse um fraco “eu vou dormir”. Buscaram suas camas. Dormir um pouco era vital. Não sabiam quando ocorreria o próximo toque de campainha a anunciar, quem sabe, mais um absurdo na madrugada.

Pela manhã, retornou a mulher, seu espectro – que sentou no mesmo local de algumas horas antes – e o advogado, para registrar o fato, em tese, atípico.

Das entrelinhas podemos depreender que o objetivo da mulher era trazer de volta o “companheiro” e sua aposentadoria para junto de si, num primeiro momento, sondando a possibilidade de fazer do indulto um instrumento para coação. Diante da impossibilidade constatada, partiu para a alternativa b: disputar o doente com as filhas do mesmo . E, se mal sucedida em obter o todo, requerer seu quinhão na aposentadoria daquele que ela se empenhou em colocar na prisão. Ela, segundo a própria, cheia de dó do doente; os plantonistas, com a maior cara de ponto de interrogação. Mas, eu só quis dizer.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Prisma.

As primeiras luzes do dia estão por aparecer, acompanhadas do frio e da umidade da estação do ano. O corpo a pedir por mais horas de sono e o compromisso a sacudi-lo. É hora de agir rápido, muito rápido. Agora estamos dentro, no abrigo; agora estamos fora, na viatura, que se desloca veloz pelas ruas ainda cinzentas com os restos da noite. Não é perceptível o tempo do percurso ou a paisagem, somente o silêncio interior. O deslocamento parece ocorrer em um túnel, onde deixamos quem somos ao nele ingressar. O único foco é a operação, o objetivo, sem conjecturas, sem vacilo. Parada brusca, portas da viatura escancaradas, corre-corre, latidos, pé na porta, gritos e o objetivo alcançado. O dia clareou totalmente, a vizinhança acordou, e os cachorros, como por mágica saíram de cena. O dia inicia mais cedo para os moradores da rua e adjacências. Alguns observam o movimento mais timidamente, abrindo apenas pequenas frestas das janelas. Outros abrem todas as janelas e até mesmo saem à rua para ver e se inteirar melhor dos fatos. Vozes emanam de uma precária moradia.
– Eu quero ver, eu quero ver! – insiste a voz infantil.
Uma voz feminina num tom de tolerância ordena: – Deixa ela ver a polícia!
Na janela, com um sorriso de satisfação, apóia-se a menininha, que fica a contemplar a cena. Os vizinhos, motivadores de toda aquela agitação matinal, estão sentados no banco de trás da viatura, fato que, ao olhar infantil, parece lhes conferir importância. Com uma entonação de voz que imprime orgulho à afirmação, a criança pergunta:
– O pai também já foi preso, né, mãe?
A mãe ri e confirma o fato, satisfazendo a filha.
As portas da viatura batem, a sirene estridente soa alto monopolizando a atenção de todos. Fica para trás a menina em sua janela.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Violação e culpa.

O olhar, entre a culpa e a apatia. Ao lado, a mãe, séria, fisionomia endurecida, um toque de irritação denunciado pelos olhos. Em algum lugar, o padrasto, pivô ausente do desconforto.
A cena silenciosa evidencia a inexistência de comunicação, a distância imensurável entre mãe e filha. Naquele momento, um desejo de aconchego materno parece ser o remédio para a dor juvenil, com o poder de unir e mandar para longe a angústia torturante. Traria o conforto e limparia a alma daquela menina de 13 anos, vítima da crua vida. O olhar espelha o desalento diante das privações já vividas, interpostas de forma soberana, e o prenúncio das que fatalmente virão. Seu mundo quase infantil foi violado; a inocência, arrebatada de forma perversa, sem a possibilidade de recusa. Aquele que pôs comida na mesa arrogou a si o direito de posse dela. Aquela que sofreu abuso carrega o peso da culpa pelo banimento do provedor da família. A censura materna é o complemento para a agonia e solidão. Pela fala da mãe, transparece a vaidade ferida e a inconformidade com a perda do pouco existente em sua vida. Para a menina, o pouco veio seguido de um alto preço, cobrado sem perguntas. Ela chegou ao mundo como mera conseqüência e nele seguirá ao acaso, no desconhecimento de como será o dia seguinte.

sábado, 16 de abril de 2011

Gurias das saias pregueadas.

Hoje comemoramos aniversário da Lena. Lá estávamos nós, as gurias. Todas na fase dos “enta”, aproveitando a ocasião para mais um encontro, como outros que já aconteceram depois que nos redescobrimos. Por um momento, olhei o grupo e vi todas em suas saias pregueadas de colégio, blusas brancas e sorrisos marotos. As que não compareceram foram lembradas. Queríamos todas lá. O mais encantador é o fato de não fazermos dos nossos encontros a hora da saudade. Fomos, não somos mais. O passado nos uniu, mas o como somos é que motiva os encontros. Hoje temos nossa realidade presente, com atividades, preocupações e adaptações. Não é apenas bonito; é lindo ver. Mudamos, seguimos nossos caminhos e nos reencontramos para celebrar, não o passado, mas o presente de cada uma, as nossas vidas, o nosso viver. Célia, Jeanne, Lea, Lena, eu e as que não compareceram hoje, histórias de vidas repletas de experiências, ricas em amores, dores, alegrias e muita, mas muita força. Quem de nós é mais sábia? Todas temos a sabedoria e o desconhecimento. Juntas, são visíveis a efervescência da experiência e a ânsia do saber mais, do conhecer. Estar feliz e em paz parece ser a meta diária de todas. A maturidade proporciona o reconhecimento das prioridades. Não nos reunimos para tomar um chá, mas até poderíamos fazê-lo. Seria um chá sem o ranço da idade. Não há cronologia, pois somos todas resolvidas, à nossa maneira e de forma individualizada, tal como a vida determinou. Relembrar seria falar dos amores e desamores da adolescência, das cólicas menstruais, cuja dor fazia chorar mais pela melancolia do rito de passagem para a vida adulta do que pela dor propriamente dita. Coisas de gurias, coisas do nosso tempo de guria. As saias pregueadas, umas mais curtas, outras menos, reportam a uma tentativa mal sucedida de padronização do não padronizável. Todas éramos únicas e agora o somos ainda mais, daí o insucesso da padronização. Sucesso profissional, dinheiro, nada é relevante frente às características pessoais desenvolvidas no tempo. São pessoas, mulheres em reencontro. Cada uma trazendo o que de mais precioso possui. Trazem a si para partilhar com as demais. Que sorte que eu tenho, gurias das saias pregueadas! Um beijo no coração de todas. E eu só quis dizer.

Contato com a dor.

Tantas coisas ocorrem, ao longo dos dias, que os tornam plenos. Deixamos que os acontecimentos fiquem relegados ao esquecimento, mas acredito que, embora isso ocorra, cada momento tem uma força transformadora. Vivemos um instante e, no seguinte, não somos mais os mesmos. A história de vida de cada um é densa, dinâmica e marcante. E quanto mais participamos ou presenciamos as vivências e dores de outros, mais nos acrescemos e nos transformamos também. Outro dia, durante um plantão, fui tomada de surpresa pela entrada de dois policiais militares conduzindo um cidadão. Na verdade, tratava-se de um marido drogado que havia sido interrompido ao tentar espancar a esposa em plena via pública. A fúria e descontrole faziam com que o indivíduo tivesse uma conduta irracional, produzindo lesões até em seus condutores. Aparentava ser uma fera, no sentido animal mesmo. A mulher, a personificação da vítima, coitada, sofrida, repleta de hematomas pelo corpo todo. Um dos seus olhos testemunhava o soco desferido pelo agressor, o outro, as lágrimas que teimavam em escorrer. Perguntar como as coisas chegaram a tal ponto é inútil. Marido usuário de drogas, filhos para manter, trabalho pesado como diarista e tempo só para trabalhar. O cara, não dá para referir de outra forma, um verdadeiro bicho, que, apesar das medidas protetivas, insistia ter a posse da mulher. Ou fica e apanha ou separa e morre. No caso, houve a separação, mas em muitos não há. O dia seguinte, na maioria dos casos, é dia de recomeçar a relação. E de apanhar também. Os filhos ficam em meio ao clima de violência doméstica, assistindo, quando não são espancados. Difícil é ficar neutra em tal circunstância. Em muitos casos, dedico um bom tempo na orientação e consolo da vítima. Gostaria de fazer mais, mas não há o que. O sistema não favorece, apenas oportuniza o contato com a dor, sem possibilidade de expurgá-la.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Polícia por vocação.

Um dia, durante o treinamento, ouvi de um professor a máxima de que ninguém entra em uma Delegacia para dizer como está bem, feliz, ou para perguntar se estamos bem, salvo um amigo em visita de cortesia. É verdade. Costumamos expressar a nossa lida como “só rolo”. Salvo uma ou outra exceção, nossa clientela já vive no “rolo” como prática cotidiana, quer pelas dificuldades financeiras, quer por situações familiares ou de vizinhança. Para muitos, beber e usar outras drogas são hábitos banais, que terminam por incorporar a mesma banalidade no cotidiano dos filhos e dos companheiros. É uma triste constatação. Evidente que o mesmo ocorre nas classes sociais mais favorecidas, porém, para estas, ir à uma Delegacia é o último dos recursos, pois manter as aparências ainda é uma atitude necessária. Furtos, roubos, acidentes de trânsito, são registros necessários, mas, fora estes, já há o temor de ingresso num contexto humilhante. Para estes, sofrer agressões do marido ou da mulher, parece ser levado ao limite do insuportável, em um certo aspecto pelo constrangimento da exposição a terceiros, representados pelos policiais de uma delegacia e, por outro, por haver a associação de delegacia com pobreza, preconceito arraigado há longa data. Por mais que o policial atendente se mantenha neutro, sempre há a dúvida sobre qual é o seu pensamento enquanto registra a ocorrência. Ouvi um jovem policial dizer que o apoio emocional às vítimas não era sua função, pois não era assistente social, mas sim, policial. Penso que, em vista de sua formação acadêmica, realmente ele estava certo, porém, percebo que há um equívoco no entendimento do jovem quanto às suas funções de servidor público. O policial tem que ter, ao natural, a solidariedade, a sensibilidade para perceber a necessidade de sua interferência sempre que a situação assim exigir. Não é uma questão de ser assistente social ou psicólogo, mas de ser muito gente, especialmente vocacionado, para tratar adequadamente quem busca auxílio movido pela necessidade e muitas vezes estando fragilizado. É uma tarefa desgastante, mas necessária. Creio que é mesmo uma questão de vocação. Hoje, no Brasil e em outras partes do mundo, a idéia está voltada para a concretização de uma polícia comunitária e pacificadora. Colocá-la em prática pode se tornar pura utopia se não houver a vocação já referida. Pessoas embrutecidas e impacientes certamente comprometem o processo. Ouso dizer que a imagem da polícia equivale à imagem do policial que registra a ocorrência. Se ele estiver atrás de um balcão, no fim do mundo, registrando ocorrências, até lá, a imagem que ele transmite se confundirá com a da instituição. E, infelizmente, o fator negativo marca muito mais a memória que o positivo. Todos sabemos disso, mas eu só quis dizer.