sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Prisma.

As primeiras luzes do dia estão por aparecer, acompanhadas do frio e da umidade da estação do ano. O corpo a pedir por mais horas de sono e o compromisso a sacudi-lo. É hora de agir rápido, muito rápido. Agora estamos dentro, no abrigo; agora estamos fora, na viatura, que se desloca veloz pelas ruas ainda cinzentas com os restos da noite. Não é perceptível o tempo do percurso ou a paisagem, somente o silêncio interior. O deslocamento parece ocorrer em um túnel, onde deixamos quem somos ao nele ingressar. O único foco é a operação, o objetivo, sem conjecturas, sem vacilo. Parada brusca, portas da viatura escancaradas, corre-corre, latidos, pé na porta, gritos e o objetivo alcançado. O dia clareou totalmente, a vizinhança acordou, e os cachorros, como por mágica saíram de cena. O dia inicia mais cedo para os moradores da rua e adjacências. Alguns observam o movimento mais timidamente, abrindo apenas pequenas frestas das janelas. Outros abrem todas as janelas e até mesmo saem à rua para ver e se inteirar melhor dos fatos. Vozes emanam de uma precária moradia.
– Eu quero ver, eu quero ver! – insiste a voz infantil.
Uma voz feminina num tom de tolerância ordena: – Deixa ela ver a polícia!
Na janela, com um sorriso de satisfação, apóia-se a menininha, que fica a contemplar a cena. Os vizinhos, motivadores de toda aquela agitação matinal, estão sentados no banco de trás da viatura, fato que, ao olhar infantil, parece lhes conferir importância. Com uma entonação de voz que imprime orgulho à afirmação, a criança pergunta:
– O pai também já foi preso, né, mãe?
A mãe ri e confirma o fato, satisfazendo a filha.
As portas da viatura batem, a sirene estridente soa alto monopolizando a atenção de todos. Fica para trás a menina em sua janela.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Violação e culpa.

O olhar, entre a culpa e a apatia. Ao lado, a mãe, séria, fisionomia endurecida, um toque de irritação denunciado pelos olhos. Em algum lugar, o padrasto, pivô ausente do desconforto.
A cena silenciosa evidencia a inexistência de comunicação, a distância imensurável entre mãe e filha. Naquele momento, um desejo de aconchego materno parece ser o remédio para a dor juvenil, com o poder de unir e mandar para longe a angústia torturante. Traria o conforto e limparia a alma daquela menina de 13 anos, vítima da crua vida. O olhar espelha o desalento diante das privações já vividas, interpostas de forma soberana, e o prenúncio das que fatalmente virão. Seu mundo quase infantil foi violado; a inocência, arrebatada de forma perversa, sem a possibilidade de recusa. Aquele que pôs comida na mesa arrogou a si o direito de posse dela. Aquela que sofreu abuso carrega o peso da culpa pelo banimento do provedor da família. A censura materna é o complemento para a agonia e solidão. Pela fala da mãe, transparece a vaidade ferida e a inconformidade com a perda do pouco existente em sua vida. Para a menina, o pouco veio seguido de um alto preço, cobrado sem perguntas. Ela chegou ao mundo como mera conseqüência e nele seguirá ao acaso, no desconhecimento de como será o dia seguinte.

sábado, 16 de abril de 2011

Gurias das saias pregueadas.

Hoje comemoramos aniversário da Lena. Lá estávamos nós, as gurias. Todas na fase dos “enta”, aproveitando a ocasião para mais um encontro, como outros que já aconteceram depois que nos redescobrimos. Por um momento, olhei o grupo e vi todas em suas saias pregueadas de colégio, blusas brancas e sorrisos marotos. As que não compareceram foram lembradas. Queríamos todas lá. O mais encantador é o fato de não fazermos dos nossos encontros a hora da saudade. Fomos, não somos mais. O passado nos uniu, mas o como somos é que motiva os encontros. Hoje temos nossa realidade presente, com atividades, preocupações e adaptações. Não é apenas bonito; é lindo ver. Mudamos, seguimos nossos caminhos e nos reencontramos para celebrar, não o passado, mas o presente de cada uma, as nossas vidas, o nosso viver. Célia, Jeanne, Lea, Lena, eu e as que não compareceram hoje, histórias de vidas repletas de experiências, ricas em amores, dores, alegrias e muita, mas muita força. Quem de nós é mais sábia? Todas temos a sabedoria e o desconhecimento. Juntas, são visíveis a efervescência da experiência e a ânsia do saber mais, do conhecer. Estar feliz e em paz parece ser a meta diária de todas. A maturidade proporciona o reconhecimento das prioridades. Não nos reunimos para tomar um chá, mas até poderíamos fazê-lo. Seria um chá sem o ranço da idade. Não há cronologia, pois somos todas resolvidas, à nossa maneira e de forma individualizada, tal como a vida determinou. Relembrar seria falar dos amores e desamores da adolescência, das cólicas menstruais, cuja dor fazia chorar mais pela melancolia do rito de passagem para a vida adulta do que pela dor propriamente dita. Coisas de gurias, coisas do nosso tempo de guria. As saias pregueadas, umas mais curtas, outras menos, reportam a uma tentativa mal sucedida de padronização do não padronizável. Todas éramos únicas e agora o somos ainda mais, daí o insucesso da padronização. Sucesso profissional, dinheiro, nada é relevante frente às características pessoais desenvolvidas no tempo. São pessoas, mulheres em reencontro. Cada uma trazendo o que de mais precioso possui. Trazem a si para partilhar com as demais. Que sorte que eu tenho, gurias das saias pregueadas! Um beijo no coração de todas. E eu só quis dizer.

Contato com a dor.

Tantas coisas ocorrem, ao longo dos dias, que os tornam plenos. Deixamos que os acontecimentos fiquem relegados ao esquecimento, mas acredito que, embora isso ocorra, cada momento tem uma força transformadora. Vivemos um instante e, no seguinte, não somos mais os mesmos. A história de vida de cada um é densa, dinâmica e marcante. E quanto mais participamos ou presenciamos as vivências e dores de outros, mais nos acrescemos e nos transformamos também. Outro dia, durante um plantão, fui tomada de surpresa pela entrada de dois policiais militares conduzindo um cidadão. Na verdade, tratava-se de um marido drogado que havia sido interrompido ao tentar espancar a esposa em plena via pública. A fúria e descontrole faziam com que o indivíduo tivesse uma conduta irracional, produzindo lesões até em seus condutores. Aparentava ser uma fera, no sentido animal mesmo. A mulher, a personificação da vítima, coitada, sofrida, repleta de hematomas pelo corpo todo. Um dos seus olhos testemunhava o soco desferido pelo agressor, o outro, as lágrimas que teimavam em escorrer. Perguntar como as coisas chegaram a tal ponto é inútil. Marido usuário de drogas, filhos para manter, trabalho pesado como diarista e tempo só para trabalhar. O cara, não dá para referir de outra forma, um verdadeiro bicho, que, apesar das medidas protetivas, insistia ter a posse da mulher. Ou fica e apanha ou separa e morre. No caso, houve a separação, mas em muitos não há. O dia seguinte, na maioria dos casos, é dia de recomeçar a relação. E de apanhar também. Os filhos ficam em meio ao clima de violência doméstica, assistindo, quando não são espancados. Difícil é ficar neutra em tal circunstância. Em muitos casos, dedico um bom tempo na orientação e consolo da vítima. Gostaria de fazer mais, mas não há o que. O sistema não favorece, apenas oportuniza o contato com a dor, sem possibilidade de expurgá-la.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Polícia por vocação.

Um dia, durante o treinamento, ouvi de um professor a máxima de que ninguém entra em uma Delegacia para dizer como está bem, feliz, ou para perguntar se estamos bem, salvo um amigo em visita de cortesia. É verdade. Costumamos expressar a nossa lida como “só rolo”. Salvo uma ou outra exceção, nossa clientela já vive no “rolo” como prática cotidiana, quer pelas dificuldades financeiras, quer por situações familiares ou de vizinhança. Para muitos, beber e usar outras drogas são hábitos banais, que terminam por incorporar a mesma banalidade no cotidiano dos filhos e dos companheiros. É uma triste constatação. Evidente que o mesmo ocorre nas classes sociais mais favorecidas, porém, para estas, ir à uma Delegacia é o último dos recursos, pois manter as aparências ainda é uma atitude necessária. Furtos, roubos, acidentes de trânsito, são registros necessários, mas, fora estes, já há o temor de ingresso num contexto humilhante. Para estes, sofrer agressões do marido ou da mulher, parece ser levado ao limite do insuportável, em um certo aspecto pelo constrangimento da exposição a terceiros, representados pelos policiais de uma delegacia e, por outro, por haver a associação de delegacia com pobreza, preconceito arraigado há longa data. Por mais que o policial atendente se mantenha neutro, sempre há a dúvida sobre qual é o seu pensamento enquanto registra a ocorrência. Ouvi um jovem policial dizer que o apoio emocional às vítimas não era sua função, pois não era assistente social, mas sim, policial. Penso que, em vista de sua formação acadêmica, realmente ele estava certo, porém, percebo que há um equívoco no entendimento do jovem quanto às suas funções de servidor público. O policial tem que ter, ao natural, a solidariedade, a sensibilidade para perceber a necessidade de sua interferência sempre que a situação assim exigir. Não é uma questão de ser assistente social ou psicólogo, mas de ser muito gente, especialmente vocacionado, para tratar adequadamente quem busca auxílio movido pela necessidade e muitas vezes estando fragilizado. É uma tarefa desgastante, mas necessária. Creio que é mesmo uma questão de vocação. Hoje, no Brasil e em outras partes do mundo, a idéia está voltada para a concretização de uma polícia comunitária e pacificadora. Colocá-la em prática pode se tornar pura utopia se não houver a vocação já referida. Pessoas embrutecidas e impacientes certamente comprometem o processo. Ouso dizer que a imagem da polícia equivale à imagem do policial que registra a ocorrência. Se ele estiver atrás de um balcão, no fim do mundo, registrando ocorrências, até lá, a imagem que ele transmite se confundirá com a da instituição. E, infelizmente, o fator negativo marca muito mais a memória que o positivo. Todos sabemos disso, mas eu só quis dizer.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Cansaço, nó na garganta e falta de poesia.

Quando decidi mudar a minha vida, incluindo nela uma atividade profissional totalmente diversa da que eu já havia exercido, confesso que tive momentos de dúvidas, uma vez que precisei passar por um treinamento que exigia vigor físico e também resistência ao sono nas muitas horas de aulas teóricas. A disciplina de horários rígidos, que incluía aulas e provas em sábados e domingos, tinha o dom de despertar reflexões sobre a validade de tudo o que me impunha tanto sacrifício. Muitas vezes, me flagrei buscando justificativas na idade para largar tudo e voltar para o aconchego da minha casa e carinho dos familiares. Fui impedida pela vergonha de ceder ao comodismo, e pela gana de estar permitindo que a pressão fosse mais forte que os meus objetivos. Quando lembro dos períodos mais críticos, imediatamente a memória resgata o apoio que recebi do marido, dos filhos e de alguns amigos e colegas. Ah! Chorei em várias ocasiões, pois o cansaço fragiliza ao extremo. Passei a ver a minha casa de uma forma nova. Vivenciei o verdadeiro sentido do aconchego do lar. Voltar para casa, após oito horas torturantes de treinamento, mais duas horas de trânsito congestionado entre ida e volta, passou a ser o momento mais precioso da vida. Se outros sentiam o cansaço com a mesma intensidade, não sei, mas para mim foi pagar todos os pecados em vida e sair ainda com crédito para alguns anos. O meu corpo foi aos poucos adquirindo uma resistência inédita (na minha vida, é evidente). Nem gripe adquiri - apesar do inverno rigoroso e chuvoso, e do grande número de colegas gripados convivendo em uma sala de aula fechada devido ao frio. Não fui uma aluna brilhante, mas digo com toda a sinceridade que isso realmente não me importava. Analisei muito todas as etapas, principalmente no que se referia a comportamento humano. Foi um aprendizado incrível. É difícil descrever o quanto me reciclei através da convivência com tanta gente jovem. A distância entre gerações era muito grande. Com os filhos convivi na condição de mãe, com alunos como professora. Lá estava eu, aluna, alvo de críticas ácidas e, às vezes, de gritos. E por escolha minha! Eu poderia passar por cima de alguns detalhes, mas, se o fizesse, o relato perderia o objetivo principal, que é o de mostrar que derrubar preconceitos tem um preço. Pagamos o preço se a vontade for grande. Assim, me sentia uma criatura meio corajosa e meio acovardada, com uma vontade louca de externar tudo o que percebia, mas sem poder fazê-lo por motivos disciplinares. Foi complicado ouvir gritos para aprender a agir em ambiente de tensão, me sentir ridícula, em muitos momentos, pela falta de agilidade e coordenação motora, o que fatalmente ocorre com o passar dos anos e quando nunca tivemos como área de interesse as atividades físicas. Jogos nunca fizeram parte do meu passatempo, e, em tempos de colégio, detestava as aulas de educação física, que se restringiam a vôlei e a caçador, quando a bola vinha invariavelmente na minha direção com a força de um coice. Até hoje me pergunto de onde se originava tanta força em meninas tão cheias de fragilidade e meiguice. Como conseguiam arremessar a bola com tanta força? Eu nunca consegui dar um saque que valesse a pena! Assim, tanto tempo depois, o fiasco só poderia ser maior. Um dia, numa das aulas de preparação física, levei uma bolada que me fez ficar com zumbido no ouvido. Foi um ato estúpido de uma colega. A criatura adorava ser engraçadinha. Não gostei, é evidente, mas deixei passar como se não soubesse a origem. Muitas vezes precisamos deixar de lado a nossa vontade de revidar à altura. Faz parte do exercício de controle emocional. Mas o nó na garganta e os questionamentos internos ocorrem como uma reação natural. Nada de privilégios ou de tolerância. Escolhi estar lá, a proposta era minha e eu tinha que provar ser capaz. O tempo vai indicando a melhor postura a ser adotada. Levamos uma bolada e silenciamos, ouvimos uma grosseria e silenciamos, e silenciamos, e silenciamos, tudo em nome do objetivo. O grande problema é a sensação de impotência que começa a tomar conta. Ela pode crescer tanto a ponto de não querermos estar onde tanto lutamos para chegar. Se alguém fizer uma idéia poética da minha trajetória, estará redondamente enganado. A poesia, eu diria, absteve-se ao início, quando havia o desconhecimento do que estava por vir, e ao final, quando já era possível saber que a superação havia levado a melhor. Sobra, no rescaldo, o alívio da sobrevivência e a alegria por ter persistido, podendo finalmente chegar ao que inicialmente era o objetivo e ao que, na verdade, é mais uma etapa cheia de desafios.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Vai entender os motivos!

Há um bom tempo não escrevo. Falta de tempo. Hoje faço parênteses, mudando um pouco o rumo do blog. Evidente que tudo faz parte de um contexto sobre trilhar caminhos e sobre com o que nos deparamos, porém foge um pouco da idéia principal, mas pode ser útil falar. Trabalhar, seja qual for a especialidade, tem lá seus momentos bons ou complicados. Cada um faz suas escolhas de acordo com a própria personalidade, princípios morais, dinamismo, etc. E fica sujeito a uma série de condições inerentes ao grupo, chefia, organização da empresa, enfim, às peculiaridades coletivas. Muitas vezes alguns desejam fazer muito por sentirem que é preciso, uma vez que todo trabalho tem seus objetivos. Mas, não raras vezes, percebem que a determinação acaba por incomodar aqueles pouco dispostos a aplicar energia no aprimoramento de sua atividade laboral, ou aos que se preocupam em não ter ofuscado o brilho de sua presença. Não estou falando sobre trabalhar com vistas ao destaque, me refiro ao simples ato de executar as tarefas corriqueiras com doação. O preguiçoso e o incompetente (ou com as duas características encerradas no mesmo corpo) parecem ser aqueles que mais tentam convencer aos demais sobre a sua capacidade e agilidade, ou tentam ganhar benesses através dos elogios exacerbados. O preguiçoso por vocação é aquele que justifica o seu estado de não fazer com argumentos pobres, como falta de reconhecimento, e com críticas à falta de condições para fazer. Normalmente é o grande escorregadio do local. Só faz o que gosta, se gosta. Quando faz algo, exaure o grupo, obrigando-o a ouvir inúmeras vezes o seu relato, que, na verdade, visa convencê-los de estarem frente à nona, décima e décima primeira maravilha do mundo. O incompetente, particularmente o incompetente ambicioso, tem por característica a seqüência de mesuras elogiosas, verdadeiramente se rasga no enaltecimento da figura de seus superiores, notadamente daqueles garantidores de seus privilégios. Em todo local de trabalho sempre tem um assim. Que seja! A maturidade tem suas vantagens. Proporciona meios para detectar mais rapidamente tais condutas. Confesso que me sinto dividida entre escrever sobre o tema, ou deixar no esquecimento. Ocorre que, desde jovem, senti os efeitos da convivência com portadores das características citadas. Costumava pensar que o famoso puxa-saco deveria ser um tipo rejeitado. Com o tempo descobri que, contrariamente, era uma figura necessária ao bajulado. Não há bajulador sem alguém necessitado de bajulação. Há pessoas que precisam disso e recompensam aquele que lhes oferece o que tanto necessitam. São incentivadores por necessidade. E, numa empresa ou instituição, tal situação, além de causar alguns descontentamentos, interfere na produtividade. O preguiçoso ocupa espaço e satura. O bajulador causa asco, e o bajulado, que alimenta tal conduta, termina por ser alvo de chacota. Fica aqui apenas a observação de quem já rodou bastante pelas estradas da vida. Vida vai e vida vem e os comportamentos se repetem. Mas, “eu só quis dizer”, tal como o Cirilo, do "Carrossel", e entender os motivos que levam cada um a ser como é nem sempre vale o esforço.