quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Acústica


Quando comecei a trabalhar na polícia, o chefe do plantão, policial experiente no registro de ocorrências, foi encarregado de treinar os novatos. Eu ficava fazendo os registros, enquanto o colega orientava. Numa das noites, entrou um velhinho do tipo desgastadíssimo, que, se dirigindo a mim, expôs que queria fazer um registro. Não me lembro do fato que o levou até a DP. Pedi sua identidade, ao que ele não atendeu. Repeti o pedido enquanto ele me olhava fixamente. Vendo os movimentos de lábios, explicou que quase não podia me ouvir. Daí teve início um verdadeiro show acústico no interior do plantão:
-O SENHOR TEM AÍ SUA IDENTIDADE?
-Ah, a senhora quer a minha identidade?
-SIM, PODE ME PASSAR SUA IDENTIDADE?
-Entendi. Não tenho.
-ENTÃO ME DIGA O SEU NOME COMPLETO.
-QUAL A SUA DATA DE NASCIMENTO?
Digitados os dados, o sistema apontou um indivíduo que possivelmente seria o velhinho surdo. Para confirmar, perguntei:
-QUAL O NOME DA SUA MÃE?
-Argelina.
-O NOME DA SUA MÃE É ALGELINDA?
Com um meio sorriso, ele respondeu:
-É, Argelina.
Eu, principiante e preocupada em não fazer registro errado, parti para o nome do pai do velhinho.
- O NOME DO SEU PAI É PEDRO? - Dando graças a Deus do progenitor ter um nome comum.
Meio inseguro, confirmou. Imaginei que o senhor Pedro devia ter ido desta para outra há um século, fato que quase o apagara da memória do filho. Resolvi refrescar-lhe a memória.
-O NOME DO SEU PAI É PEDRO E O DA SUA MÃE É ALGELINDA!
O velhinho estampou um meio sorriso e tornou a falar:
- É, Argelina.
Eu ia repetir o nome da mãe novamente, quando fui interrompida pelo plantonista, que, já impaciente, estivera o tempo inteiro ali, naquele plantão do tamanho de um ovo, assistindo a cena e ouvindo o meu exercício vocal. Apressado falou:
-Toca, toca pra frente o registro que é ele mesmo!
Irritada por estar sendo apurada por ele, virei e falei indignada no mesmo tom em que falara com o velhinho:
-MAS EU NÃO POSSO DEIXAR ELE MORRER SEM SABER DIZER O NOME DA MÃE DELE!!!!
Dei-me conta de que minha voz ecoara, e que até o velhinho surdo ouvira a exclamação.
O momento seguinte foi de silêncio absoluto, logo seguido da risada do plantonista.
Não saberia descrever o tamanho do meu constrangimento. Coisa de principiante, mas eu só quis dizer.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Resgatando o afeto


Entrei e olhei os rostos, procurando algum que me fosse familiar. Escolhi uma mesa de onde eu pudesse observar a porta. Lentamente puxei a cadeira, sentei e, de imediato, comecei a remexer no conteúdo da minha bolsa, buscando, naquele mar caótico, uma caneta. Se tivesse que esperar, precisaria me ocupar, quem sabe, escrevendo algumas linhas, para aproveitá-las em um texto novo. Nada de caneta, incrível! Desisti e comecei a olhar o cardápio que o garçom trouxera na minha chegada. As gurias logo chegariam! E o Claudio, será que viria também? Eu estava ali, inquieta como uma adolescente. Na verdade, naquele momento, eu era uma adolescente, pois meus pensamentos estavam voltados aos meus treze ou quatorze anos – tempo de ginásio. Sempre fico assim quando vou ao encontro dos colegas da adolescência. É como se abrisse uma janela no tempo e esta me permitisse retomar a leveza da juventude. Entrava um, entrava outro e nada de aparecerem. Olhei as horas e constatei estar havia cinco minutos ali. Mas que cinco minutos longos! Novamente, a porta se abriu e vi o Claudio. Um misto de alegria e serenidade tomou conta de mim. Quarenta anos se passaram desde a última vez em que nos vimos. Como explicar a insignificância desse tempo, em relação aos cinco minutos anteriormente esperados? Senti a alegria do reencontro, e a sensação de que há pouco estávamos sentados no muro do colégio, conversando durante o recreio. O reencontro desfez o espaço temporal, trazendo aquele sentimento de amizade e proximidade. Saudade? Acho que é só uma palavra que usamos por não sabermos expressar o que realmente sentimos. Penso ser familiaridade, quando nos sentimos tão próximos e à vontade, num reencontro após quarenta anos. O abraço, caloroso, cheio de “Claudio”. É, sempre foi assim, muito Claudio, como só ele sabia ser, e percebo que ainda sabe. Sentados frente-a-frente, comecei a falar, numa urgência de contar as últimas novidades da minha vida, como se ele soubesse alguma coisa dela. Como se houvéssemos conversado no dia anterior. Sobre a expressão “falar pelos cotovelos”, fui à exemplificação na medida exata. Tinha tanto para dizer, que realmente precisaria de cotovelos falantes. Mudamos em muitos aspectos. Vivemos nossas vidas na mesma cidade, sem um dia sequer termos nos encontrado. Cada um cuidando da própria vida, dos seus amores e seguindo sua caminhada. Envelhecemos, evidentemente. As indisfarçáveis marcas do tempo estavam presentes nos nossos rostos, mas ainda éramos nós, Claudio e Silvia, sentados no muro do colégio, rindo e conversando; ele, mais a observar. Esses momentos me fazem sentir como a vida é boa. Pequenas frações de tempo renovam, pela alegria que proporcionam. Minha tagarelice foi interrompida pela chegada da Lea e da Jeanne. Como não ficar feliz naquele momento? Posso dizer que estarmos ali era um presente. O meu dia havia sido difícil, com frustrações relacionadas ao trabalho, as quais ficaram esquecidas. A Jeanne, que fazia muito não via o Claudio, passou de imediato a indagá-lo, alegando que tinha que aproveitar a oportunidade para se atualizar sobre a vida dele, saber dos filhos, casamento, eticétera, eticétera. Foi divertido assistir! A Lea já estava mais inteirada, pois sempre manteve contato ao longo dos anos. Mas o Claudio tinha um compromisso e precisava ir embora. Nos despedimos, então. Lamentei, mas não fiquei triste. Ele iria se ausentar da minha vida por um espaço de tempo indeterminado, porém, insignificante a partir do momento em que nos reencontrássemos, tal como ocorrera com os quarenta anos. Percebi que, em qualquer tempo, ele continuaria sendo muito “Claudio”. Ele estava bem, isso é o que importava. Sozinhas, eu, Jeanne e Lea recomeçamos nossa conversa, que ainda se estendeu por algumas horas, insuficientes para tanto o que falar. Combinamos novo encontro para breve. Levantamos e lentamente saímos pela porta, como meninas com saias de preguinhas em tempo de colégio; a alma renovada pela certeza da vitória no desafio do tempo. No caminho para casa, pensei muito neles e no quanto vê-los me fizera bem. Realmente não é saudade. É uma retomada do afeto, sem resgate do passado; simplesmente assim. Somos o que somos no presente, e do passado só queremos o afeto que  não se extinguiu; se renova a cada encontro. Antes que o tempo me vença é melhor comunicar: - Claudio, Jeanne e Lea, que bom que estão na minha vida! Amo vocês! Mas eu só quis dizer.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Marcas no olhar.


Mais de um ano de trabalho e, conseqüentemente, muitos plantões. O que mudou?  Em mim, muitas mudanças. Definitivamente não sou a mesma de um ano atrás. Esse, no entanto, não é um comentário sobre o óbvio, pois me refiro a uma transformação, talvez, sutil à percepção de alguns; mas exacerbada ao meu sentir. Certa vez, uma amiga expressou a ideia de que, segundo o seu entendimento, o policial deveria ter o olhar sereno de um guarda florestal, tal como o meu. Achei graça e agradeci pelo estranho elogio. Não obstante a graça, suas palavras foram extremamente marcantes, pois freqüentemente as relembro. Observo atentamente os olhares que me cercam. Na DP, raros são os que transmitem esta serenidade. Sei que o meu olhar mudou, e agora reflete uma realidade vivenciada que, há um ano atrás, para mim, pertencia ao contexto distante que circula nos jornais e na televisão. Há uma realidade que todos sabemos existir, mas que só esporadicamente nos toca. Dela somos reféns e talvez por isso procuramos vê-la como típica de um outro mundo, mundo esse que tememos como crianças temem o “bicho papão”. Creio ser um mecanismo de defesa da nossa paz interior. Pois bem, o meu trabalho me coloca exatamente em meio ao que a maioria gostaria de ignorar. No mundo de “Alice no país das maravilhas”, onde tudo é cor e descobertas, o olhar serena. Na realidade de uma DP, nada é cor. Inexoravelmente encontramos o pior que o ser humano carrega em si, num desfile contínuo de agressividades, vilanias, desonestidades. São condutas que imprimem a desconfiança no olhar daqueles que, por decorrência do trabalho, contatam freqüentemente com elas. É difícil saber quem mente quando as partes presentes a nossa frente afirmam veementemente dizer a verdade. Aprender a não ter, nem demonstrar, empatia é um exercício necessário. Por vezes, propositalmente, procuramos criar um certo ar de empatia, pois, como estratégia, rende informações valiosas à eficiência do trabalho. Tudo isso faz de nós, policiais, profissionais especializados  numa lida nefasta, que deixa marcas no nosso olhar e na nossa expressão facial... É comum a atividade profissional deixar certas características em quem a exerce. Fui professora por um bom tempo e muitas vezes me flagro tendo preocupações que são consideradas estranhas no meu atual ambiente de trabalho. Uma mesinha com brinquedos para distrair crianças que acompanham os pais até a delegacia está lá. Não as quero em meio à bagunça que os pais promovem. Delegacia não é lugar de criança, mas os pais se agridem e elas vão junto, devido à falta de quem as fique cuidando em casa. Não raras vezes os PMs chegam à DP conduzindo o marido algemado e a mãe espancada. Esta, carregando um filho nos braços e um outro pela mão. Manter o controle diante do triste quadro é tarefa difícil. E o que pensar e fazer frente à fragilidade e o trauma das criancinhas reféns de uma família completamente desestruturada? Não há muita opção para aquele curto espaço de tempo tomado pelo registro da ocorrência. A mesinha com papéis e lápis de cor é um breve alento. As crianças ficam divididas entre brincar e permanecer junto da mãe. E a professora que ainda habita em mim procura, sem encontrar, uma solução aceitável para a situação. Os meus olhos passam a refletir descrença; descrença no mundo, na sorte, nos direitos individuais e em tantas outras possibilidades que são negadas aos gerados sem pedir. Um ano é uma vida de aprendizado. É tempo para conhecer o que não precisava existir. Mas eu só quis dizer.  

domingo, 8 de janeiro de 2012

A apoteose sexual do velhinho.


Do portão, eu o vi caminhando em minha direção. O corpo franzino, numa postura a indicar cansaço, combinando com os passos miúdos e inseguros. Era uma figura acabada, estampando o maltrato que a vida dura imprimiu. Chegou até mim, tirou o chapéu num gesto de cumprimento hesitante. Sorri e perguntei se podia ajudá-lo. Pobre velhinho, pensei, deve estar com problemas. Em razão disso, mostrei o meu melhor sorriso, pensando em deixá-lo mais confiante para expor seu problema. Ele não esboçou qualquer intenção de entrar na DP. Disse apenas que precisava de uma orientação e de imediato iniciou seu relato.
Contou que a mulher sempre fora muito maledicente e que era assim com todos. Que não moravam mais juntos, por ela não querê-lo perto, mas que já gastara o dinheiro todo da poupança e o da venda de um terreno para sustentá-la, e que esta, atualmente, morava com uma das filhas. Lamentou-se pelo fato de sua mulher estar matando a filha e o genro que cuidavam dela. Relatou que os outros filhos não queriam proximidade com a mãe, pois esta passava todo o tempo praguejando os que estavam próximos. Fiquei extremamente compadecida com o lamento daquele velhinho, que me parecia estar ao final da vida e merecia mais serenidade. Ponderei a ele que o comportamento de difícil lida devia ser em decorrência de insanidade senil, possível de se manifestar em idade avançada. No entanto ele, de pronto, exclamou que ela sempre fora assim. E ainda acrescentou:- Antes, pelo menos era mais “leviana” (leve). Agora, depois do AVC, ela engordou. Toma quatro cafés com leite, só na parte da tarde, com pão e o que mais tiver!
Naquele momento, acho que arregalei os olhos, embora quisesse manter a fleuma.
Disse ele numa fala incontida: - A senhora imagina que ela antes tinha uns noventa quilos e, agora, deve estar com uns cento e trinta. E como não consegue levantar para ir ao banheiro, faz tudo nas fraldas.
Nessa altura do campeonato, eu já passava as mãos na cabeça, num gesto nervoso, pensando numa saída para aquela situação. Entendi a razão de filha e genro estarem “caindo pelas tabelas” frente a um trabalho tão exaustivo; mas percebi uma expressão estranha no olhar do homem; um misto de rancor em relação a sua mulher. Perguntei a idade dele, ao que me informou ter 80 anos. Expliquei que ele deveria procurar o serviço de assistência social da prefeitura, para arranjar uma clínica geriátrica, poupando, assim, sua filha e genro de uma tarefa tão árdua. Mas ele queria falar mais. De dentro da sala do plantão, sem que eu houvesse percebido, dois colegas assistiam e ouviam atentamente a conversa, num silêncio divertido. E o velhinho prosseguiu:- Ela sempre foi muito ciumenta e nunca me deixava aproximar de uma mulher assim – fazendo um gesto com a mão em minha direção, como para indicar a distância que havia entre nós.
- Me separei dela e nunca fui..... – Deu, então, uma risadinha marota, franzindo ainda mais a face enrugada.
Neste momento eu concluí que a conversa precisava encerrar. Já estávamos entrando no foro íntimo da vida dele. Ele insistia em repetir que nunca tinha “ido”, impedido por sua fidelidade, forçada, a uma mulher ciumenta de noventa quilos, contra  os seus prováveis sessenta. Finalmente, a fala dele atingiu entusiasticamente a narrativa que me pareceu apoteótica.
- Pois a senhora sabe, que outro dia, depois de tanto tempo, eu fui e fiz!
Aquilo foi demais. Aquela criatura que caminhava precariamente, externava grande euforia para contar que “fez”?!
- Me poupe, por favor! – pensei. Assistir aquele homem tísico, aos 80 anos, externar seu lado de lobo, deixou-me perplexa.  Para encerrar a conversa, reforcei a orientação sobre o serviço social e aleguei ter um trabalho para executar. Ele agradeceu o atendimento e se pôs em lenta caminhada, recolocando o chapéu na cabeça. Ao fazer meia volta para entrar na sala do plantão, deparei com os dois colegas rindo. Um disse: -Atendeu o velhinho... Ele gosta de sexo, não é? Surpresa, perguntei se eles haviam ouvido a nossa conversa. Rindo, o colega respondeu que sim, mas que já sabia das aventuras dele, pois há alguns dias o ancião estivera na DP com a mesma conversa sobre sua apoteose sexual. As amarguras de sua vida eram, na verdade, uma forma introdutória para a narrar seu feito sexual, aliás, um grande  evento. Mas eu só quis dizer. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bom dia, loucura!


Manhã com um friozinho gostoso de beira de rio. Depois de um dia agitado e de uma noite tranqüila, aproxima-se a hora de encerrar o plantão. O que conclui o despertar é o café da manhã na padaria bem próxima à DP. A refeição da manhã tem a finalidade fundamental de me extrair do estado de catatonia em que levanto. Depois de dormir sobre um colchão que parece uma massa, levanto toda doída e deixo meu formato gravado nele. A saída é alongar e correr para a padaria. Viva o pão de queijo! Viva a cueca virada!Viva o café com leite! Incrível! Uma alegria gastronômica na vida da magrela! No curto trajeto, encontros e diálogos habituais:
- Bom dia, alemoa!
- Bom dia, querida! Tô indo pra casa. Vô compá pon. Olha o meu cachorro, esse é meu, meu cachorro!
Acho que durante a noite fez amizade com um cachorro de rua e este passou a seguí-la. Mas nem um cachorro agüentaria acompanhá-la em suas caminhadas pela cidade.
-Legal, alemoa, muito bonito o teu cachorro. Tchau, alemoa!
Sigo meu caminho e a deixo falando alguma coisa ininteligível. Ela passa o dia inteiro caminhando pela cidade, mas anuncia estar fazendo faxina. Ninguém imagina quando dorme. Algumas vezes pergunta se ônibus já passou, mas nunca a vi subir nele. Caminho mais um pouco e já visualizo o ciclista. Este me abana falando alguma coisa que nunca consigo entender. Na mão, uma latinha de refri, que dizem ser um disfarce para a cachaça. Mas, cachaça, cedo da manhã? Sua fala parece vir do interior de uma cumbuca. Tem um som muito estranho. Conversa sozinho todo o tempo. Parece um rádio ligado. Dizem que uma roda acertou a cabeça dele em cheio, o que o deixou mais sequelado do que já era. Entro na padaria, cumprimento os conhecidos e peço o meu café. Sento em uma mesa próxima à vitrine. É bom observar as pessoas que passam em direção ao trabalho, ou que vão até a praia, para atravessar o rio na barquinha que faz o vai-e-vem de pessoas entre as cidades. Próximo a minha mesa está Adão. Olho para ele e com um “bom dia”, introduzo uma conversa.
- E aí, Adão, tomando o café para começar ou encerrar o dia?
No seu traje de vigilante, pistola de plástico em um coldre surrado, postura estudada para transmitir cansaço, ele responde:
- Tô saindo, tava de plantão.
Naquele momento, ele “está” um vigilante; mas, outras vezes, usa terno e passa a ser delegado. As pessoas costumam dar-lhe uniformes e ele muda de profissão conforme a roupa que veste. Há vários personagens em Adão. De correspondente internacional a agente penitenciário. Mas ele adora polícia. Já disse que dará um curso de técnicas operacionais para nós, da DP. Alguém deve ter falado no assunto e ele memorizou. Contaram que fez até demonstrações em frente à Delegacia. Outro dia mostrou os finos braços dizendo que está malhando na academia.
- Tô fortão! Puxando ferro!
Mostrei-me impressionada, e ele ficou visivelmente envaidecido.
Meu café é servido e inicio o gostoso delírio matinal. Dá uma alegria enorme estar ali, naquela pequena cidade, tomando aquele café delicioso e cercada por meus loucos. Talvez eu também seja um deles. De que tipo, não sei, mas certamente sou louca por café com leite, pão de queijo e cueca virada. Então, só o que há para dizer é:  
 -Bom dia, loucura!! Isso tudo me faz muito feliz! Mas eu só quis dizer.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Romeu drogado ou Vera querida, eu chi amo! Parte 2


Subitamente entra no plantão Vera querida, acompanhada por dois brigadianos que conduziam o Romeu drogado. Inconformado, este exclamava seu amor pela cabeleireira, tal como acontecera alguns dias antes. Um único pensamento passou por minha cabeça: -De novo!!! A violação das medidas protetivas levou o casal até nós, num curto espaço de tempo. Os colegas da BM explicaram brevemente o que havia ocorrido. Sendo hora do almoço, o plantonista dera uma rápida saída, aliás, como os demais da DP. Apenas eu, um colega da Volante e Deus estávamos no prédio. Eu dizia tantos “ai meu Deus”, que, suponho, Ele desceu do céu para o plantão. Os PMs foram chamados para outra ocorrência, saíram para retornar mais tarde. A cabeleireira foi em busca de algum alimento. Ali permanecemos com o Romeu choroso, que imediatamente anunciou que poria fim a própria vida. Deixamos que fizesse sua cena, apenas observando o protagonista, até ele começar a bater com a cabeça na parede.  Meu colega tentou fazê-lo parar, advertindo-o sobre os ferimentos, eticetera, eticetera, e nada, a gritaria continuou, acompanhada das cabeçadas. A possibilidade do sujeito ficar com lesões nos deixou preocupados. Sabíamos da nossa responsabilidade pela integridade física do preso. Preocupava-nos a possibilidade do preso adquirir lesões sob a nossa custódia e, também, por estarmos os dois em estágio probatório. Bateu a insegurança. As pessoas passavam na calçada e espiavam pelas janelas da delegacia. Os gritos aguçavam a curiosidade dos passantes. Meu colega pediu que eu segurasse o Romeu, enquanto telefonava solicitando o retorno da PM. Cruzei as mãos atrás do pescoço do homem autolesivo e passei a puxá-lo para frente, para impedir que sua cabeça batesse na parede. Da janela, as pessoas me viam puxar a criatura em minha direção e ele a gritar. Eu suava muito com o esforço e estava bastante tensa por participar daquela cena, no mínimo, estranha. Não podíamos pedir ajuda aos transeuntes! Ficaria na história da pequena cidade o pedido de socorro da polícia aos cidadãos. Comecei a ficar preocupada com o ridículo da situação; a platéia, que agora era minha e dele, poderia interpretar que eu assediava o preso, e que ele gritava por não aceitar o assédio. Finalmente meu colega terminou os telefonema. Pude, então, interromper aquela ridicularia. Busquei algo para amortecer as cabeçadas. Abençoado Código Penal! Funcionou, graças ao bom Deus! O plantonista retornou, para nosso alívio, e junto chegaram os PMs, fato que modificou a conduta do Romeu tornando-se muito calmo. Hoje, ao lembrar o episódio, percebo que a minha inexperiência, assim como a do colega, certamente deram asas ao abuso de paciência por parte daquela criatura, que encenou o tempo inteiro, deixando-nos em estado total de exaustão. Iniciado o registro da ocorrência, ficamos sabendo que nosso preso escandaloso tinha um histórico de muitas confusões, não trabalhava e vivia às custas da cabeleireira viúva. Dela provinha o dinheiro para as drogas. Estava com 29 anos de idade, e Vera querida com 53. Pelo que pude apurar, ela recebia uma pensão em razão da viuvez. Pode parecer pouco, mas é comum, em grupos menos favorecidos, uma mãe que recebe bolsa família por dois ou três filhos virar alvo de parasitas de tipos como o Romeu. Pois é, o nosso “herói” tinha razões para espernear. A perda da galinha dos ovos de ouro, certamente, o deixava muito preocupado. Vera querida agora se comportava como uma mãe austera, ameaçando abandoná-lo, sem dinheiro para suas “pedrinhas”. Pensam que terminou por aí? Não! Apesar das afirmativas contrárias, a cabeleireira voltou ao convívio de seu amado que, embora fosse um estorvo, a fazia sentir-se invejada em razão de ser um companheiro tão jovem.  Soubemos da reconciliação quando, duas semanas mais tarde, ela retornou à delegacia acompanhada do irmão, da cunhada e de uma sobrinha, os quatro se dizendo ameaçados de morte pelo Romeu drogado. Ela evitava olhar em minha direção. Dava para perceber que Vera querida sabia haver esgotado a cota de paciência de todos os presentes, particularmente, a minha, uma vez que eu já me expressara de forma bastante clara sobre aquele circo que o casal formava com seus desentendimentos.  O abençoado celular da Volante tocou chamando para um trabalho externo, o que teve o valor de um presente para mim. Pensei: -Adeus, Vera querida! De preferência, até nunca mais!!! Mas eu só quis dizer. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Romeu drogado ou Vera querida, eu “chi” amo! Parte 1


Como já havia ocorrido em outras ocasiões, ela entrou na DP para ser protegida do atual companheiro. Eu ignorava a habitualidade das brigas travadas pelo casal. Estava iniciando minha carreira policial e, conseqüentemente, ansiosa por ação. As queixas da mulher me deixaram indignada. Pobre mulher! pensava eu. O companheiro era usuário de drogas, facão, ameaças, e ela estava impossibilitada de buscar suas roupas na casa que, até aquele momento, havia sido seu lar. Relatou que tinha medo, enfim, mil mazelas, mas sem lágrimas. Na ocasião trabalhavam dois delegados na DP, ambos recém formados e igualmente ávidos por atuar. Em matéria de experiência na lida com a clientela de uma Delegacia, eles, assim como nós da Volante, eram totalmente"verdes". Imediatamente ficou determinado que a mulher, dita cabeleireira, seria levada à casa onde estavam seus pertences, para retirá-los sob nossa proteção. Era uma época chuvosa e, ao saber da missão, um colega veterano e morador da cidade alertou para o barro que iríamos encontrar na estrada. Outro agente, novato também, ao escutar a observação do veterano, e contrariando o costumeiro, prontamente me passou a chave da viatura para que eu dirigisse – a gente nunca escapa de ter um metido a esperto entre os colegas. Assumi a direção, e digo para quem não sabe, que com mulher polícia, nem o diabo pode! Saímos em direção ao tal local, levando junto a cabeleireira, seguidos por outro veículo, no qual estavam os dois delegados. Dizer que fomos para uma estrada embarrada me parece muito pouco. Era uma meleca só durante todo o caminho, com a viatura rabeando a cada momento. Confesso que jamais havia dirigido no barro. A mulher indicava o caminho na base dos “dobra aqui e é logo ali”, intermináveis. Chegamos ao local finalmente; hora de enfrentar a fera drogada. Visualizamos um sujeito na soleira da porta. Quando avistou quatro policiais com armas na mão, a criatura passou a choramingar, chamando pela mulher numa cena lamentável. Colocamos uma cadeira no lado de fora do barraco e algemamos a ela o “perigoso”, para que não corresse atrás da protegida. Ele só fazia prantear a ingratidão da cabeleireira que estava por abandoná-lo. Reunidos em trouxas os pertences, saímos em disparada após soltar o homem, que ainda tentou correr atrás dos carros, tal como faria um cão querendo alcançar seu dono. A propósito, o nome da mulher era Vera. Em suas exclamações chorosas com características de estado de embriaguez, ele lamentava: -Vera, querida, eu “chi” amo! Por que isso, Vera!? Não vai embora, meu amor!
Na operação resgate dos pertences da vítima, dava para perceber um certo ar de travessura em nós, policiais. Verdinhos,verdinhos! Havíamos conseguido fugir do Romeu drogado, embora a persistência dele, por instantes, até nos tenha feito imaginar o contrário.  Voltamos para a DP com os veículos cobertos de barro, jurando que o episódio estava encerrado. Só que não! Mas eu só quis dizer.