sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Marcas no olhar.


Mais de um ano de trabalho e, conseqüentemente, muitos plantões. O que mudou?  Em mim, muitas mudanças. Definitivamente não sou a mesma de um ano atrás. Esse, no entanto, não é um comentário sobre o óbvio, pois me refiro a uma transformação, talvez, sutil à percepção de alguns; mas exacerbada ao meu sentir. Certa vez, uma amiga expressou a ideia de que, segundo o seu entendimento, o policial deveria ter o olhar sereno de um guarda florestal, tal como o meu. Achei graça e agradeci pelo estranho elogio. Não obstante a graça, suas palavras foram extremamente marcantes, pois freqüentemente as relembro. Observo atentamente os olhares que me cercam. Na DP, raros são os que transmitem esta serenidade. Sei que o meu olhar mudou, e agora reflete uma realidade vivenciada que, há um ano atrás, para mim, pertencia ao contexto distante que circula nos jornais e na televisão. Há uma realidade que todos sabemos existir, mas que só esporadicamente nos toca. Dela somos reféns e talvez por isso procuramos vê-la como típica de um outro mundo, mundo esse que tememos como crianças temem o “bicho papão”. Creio ser um mecanismo de defesa da nossa paz interior. Pois bem, o meu trabalho me coloca exatamente em meio ao que a maioria gostaria de ignorar. No mundo de “Alice no país das maravilhas”, onde tudo é cor e descobertas, o olhar serena. Na realidade de uma DP, nada é cor. Inexoravelmente encontramos o pior que o ser humano carrega em si, num desfile contínuo de agressividades, vilanias, desonestidades. São condutas que imprimem a desconfiança no olhar daqueles que, por decorrência do trabalho, contatam freqüentemente com elas. É difícil saber quem mente quando as partes presentes a nossa frente afirmam veementemente dizer a verdade. Aprender a não ter, nem demonstrar, empatia é um exercício necessário. Por vezes, propositalmente, procuramos criar um certo ar de empatia, pois, como estratégia, rende informações valiosas à eficiência do trabalho. Tudo isso faz de nós, policiais, profissionais especializados  numa lida nefasta, que deixa marcas no nosso olhar e na nossa expressão facial... É comum a atividade profissional deixar certas características em quem a exerce. Fui professora por um bom tempo e muitas vezes me flagro tendo preocupações que são consideradas estranhas no meu atual ambiente de trabalho. Uma mesinha com brinquedos para distrair crianças que acompanham os pais até a delegacia está lá. Não as quero em meio à bagunça que os pais promovem. Delegacia não é lugar de criança, mas os pais se agridem e elas vão junto, devido à falta de quem as fique cuidando em casa. Não raras vezes os PMs chegam à DP conduzindo o marido algemado e a mãe espancada. Esta, carregando um filho nos braços e um outro pela mão. Manter o controle diante do triste quadro é tarefa difícil. E o que pensar e fazer frente à fragilidade e o trauma das criancinhas reféns de uma família completamente desestruturada? Não há muita opção para aquele curto espaço de tempo tomado pelo registro da ocorrência. A mesinha com papéis e lápis de cor é um breve alento. As crianças ficam divididas entre brincar e permanecer junto da mãe. E a professora que ainda habita em mim procura, sem encontrar, uma solução aceitável para a situação. Os meus olhos passam a refletir descrença; descrença no mundo, na sorte, nos direitos individuais e em tantas outras possibilidades que são negadas aos gerados sem pedir. Um ano é uma vida de aprendizado. É tempo para conhecer o que não precisava existir. Mas eu só quis dizer.  

domingo, 8 de janeiro de 2012

A apoteose sexual do velhinho.


Do portão, eu o vi caminhando em minha direção. O corpo franzino, numa postura a indicar cansaço, combinando com os passos miúdos e inseguros. Era uma figura acabada, estampando o maltrato que a vida dura imprimiu. Chegou até mim, tirou o chapéu num gesto de cumprimento hesitante. Sorri e perguntei se podia ajudá-lo. Pobre velhinho, pensei, deve estar com problemas. Em razão disso, mostrei o meu melhor sorriso, pensando em deixá-lo mais confiante para expor seu problema. Ele não esboçou qualquer intenção de entrar na DP. Disse apenas que precisava de uma orientação e de imediato iniciou seu relato.
Contou que a mulher sempre fora muito maledicente e que era assim com todos. Que não moravam mais juntos, por ela não querê-lo perto, mas que já gastara o dinheiro todo da poupança e o da venda de um terreno para sustentá-la, e que esta, atualmente, morava com uma das filhas. Lamentou-se pelo fato de sua mulher estar matando a filha e o genro que cuidavam dela. Relatou que os outros filhos não queriam proximidade com a mãe, pois esta passava todo o tempo praguejando os que estavam próximos. Fiquei extremamente compadecida com o lamento daquele velhinho, que me parecia estar ao final da vida e merecia mais serenidade. Ponderei a ele que o comportamento de difícil lida devia ser em decorrência de insanidade senil, possível de se manifestar em idade avançada. No entanto ele, de pronto, exclamou que ela sempre fora assim. E ainda acrescentou:- Antes, pelo menos era mais “leviana” (leve). Agora, depois do AVC, ela engordou. Toma quatro cafés com leite, só na parte da tarde, com pão e o que mais tiver!
Naquele momento, acho que arregalei os olhos, embora quisesse manter a fleuma.
Disse ele numa fala incontida: - A senhora imagina que ela antes tinha uns noventa quilos e, agora, deve estar com uns cento e trinta. E como não consegue levantar para ir ao banheiro, faz tudo nas fraldas.
Nessa altura do campeonato, eu já passava as mãos na cabeça, num gesto nervoso, pensando numa saída para aquela situação. Entendi a razão de filha e genro estarem “caindo pelas tabelas” frente a um trabalho tão exaustivo; mas percebi uma expressão estranha no olhar do homem; um misto de rancor em relação a sua mulher. Perguntei a idade dele, ao que me informou ter 80 anos. Expliquei que ele deveria procurar o serviço de assistência social da prefeitura, para arranjar uma clínica geriátrica, poupando, assim, sua filha e genro de uma tarefa tão árdua. Mas ele queria falar mais. De dentro da sala do plantão, sem que eu houvesse percebido, dois colegas assistiam e ouviam atentamente a conversa, num silêncio divertido. E o velhinho prosseguiu:- Ela sempre foi muito ciumenta e nunca me deixava aproximar de uma mulher assim – fazendo um gesto com a mão em minha direção, como para indicar a distância que havia entre nós.
- Me separei dela e nunca fui..... – Deu, então, uma risadinha marota, franzindo ainda mais a face enrugada.
Neste momento eu concluí que a conversa precisava encerrar. Já estávamos entrando no foro íntimo da vida dele. Ele insistia em repetir que nunca tinha “ido”, impedido por sua fidelidade, forçada, a uma mulher ciumenta de noventa quilos, contra  os seus prováveis sessenta. Finalmente, a fala dele atingiu entusiasticamente a narrativa que me pareceu apoteótica.
- Pois a senhora sabe, que outro dia, depois de tanto tempo, eu fui e fiz!
Aquilo foi demais. Aquela criatura que caminhava precariamente, externava grande euforia para contar que “fez”?!
- Me poupe, por favor! – pensei. Assistir aquele homem tísico, aos 80 anos, externar seu lado de lobo, deixou-me perplexa.  Para encerrar a conversa, reforcei a orientação sobre o serviço social e aleguei ter um trabalho para executar. Ele agradeceu o atendimento e se pôs em lenta caminhada, recolocando o chapéu na cabeça. Ao fazer meia volta para entrar na sala do plantão, deparei com os dois colegas rindo. Um disse: -Atendeu o velhinho... Ele gosta de sexo, não é? Surpresa, perguntei se eles haviam ouvido a nossa conversa. Rindo, o colega respondeu que sim, mas que já sabia das aventuras dele, pois há alguns dias o ancião estivera na DP com a mesma conversa sobre sua apoteose sexual. As amarguras de sua vida eram, na verdade, uma forma introdutória para a narrar seu feito sexual, aliás, um grande  evento. Mas eu só quis dizer. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bom dia, loucura!


Manhã com um friozinho gostoso de beira de rio. Depois de um dia agitado e de uma noite tranqüila, aproxima-se a hora de encerrar o plantão. O que conclui o despertar é o café da manhã na padaria bem próxima à DP. A refeição da manhã tem a finalidade fundamental de me extrair do estado de catatonia em que levanto. Depois de dormir sobre um colchão que parece uma massa, levanto toda doída e deixo meu formato gravado nele. A saída é alongar e correr para a padaria. Viva o pão de queijo! Viva a cueca virada!Viva o café com leite! Incrível! Uma alegria gastronômica na vida da magrela! No curto trajeto, encontros e diálogos habituais:
- Bom dia, alemoa!
- Bom dia, querida! Tô indo pra casa. Vô compá pon. Olha o meu cachorro, esse é meu, meu cachorro!
Acho que durante a noite fez amizade com um cachorro de rua e este passou a seguí-la. Mas nem um cachorro agüentaria acompanhá-la em suas caminhadas pela cidade.
-Legal, alemoa, muito bonito o teu cachorro. Tchau, alemoa!
Sigo meu caminho e a deixo falando alguma coisa ininteligível. Ela passa o dia inteiro caminhando pela cidade, mas anuncia estar fazendo faxina. Ninguém imagina quando dorme. Algumas vezes pergunta se ônibus já passou, mas nunca a vi subir nele. Caminho mais um pouco e já visualizo o ciclista. Este me abana falando alguma coisa que nunca consigo entender. Na mão, uma latinha de refri, que dizem ser um disfarce para a cachaça. Mas, cachaça, cedo da manhã? Sua fala parece vir do interior de uma cumbuca. Tem um som muito estranho. Conversa sozinho todo o tempo. Parece um rádio ligado. Dizem que uma roda acertou a cabeça dele em cheio, o que o deixou mais sequelado do que já era. Entro na padaria, cumprimento os conhecidos e peço o meu café. Sento em uma mesa próxima à vitrine. É bom observar as pessoas que passam em direção ao trabalho, ou que vão até a praia, para atravessar o rio na barquinha que faz o vai-e-vem de pessoas entre as cidades. Próximo a minha mesa está Adão. Olho para ele e com um “bom dia”, introduzo uma conversa.
- E aí, Adão, tomando o café para começar ou encerrar o dia?
No seu traje de vigilante, pistola de plástico em um coldre surrado, postura estudada para transmitir cansaço, ele responde:
- Tô saindo, tava de plantão.
Naquele momento, ele “está” um vigilante; mas, outras vezes, usa terno e passa a ser delegado. As pessoas costumam dar-lhe uniformes e ele muda de profissão conforme a roupa que veste. Há vários personagens em Adão. De correspondente internacional a agente penitenciário. Mas ele adora polícia. Já disse que dará um curso de técnicas operacionais para nós, da DP. Alguém deve ter falado no assunto e ele memorizou. Contaram que fez até demonstrações em frente à Delegacia. Outro dia mostrou os finos braços dizendo que está malhando na academia.
- Tô fortão! Puxando ferro!
Mostrei-me impressionada, e ele ficou visivelmente envaidecido.
Meu café é servido e inicio o gostoso delírio matinal. Dá uma alegria enorme estar ali, naquela pequena cidade, tomando aquele café delicioso e cercada por meus loucos. Talvez eu também seja um deles. De que tipo, não sei, mas certamente sou louca por café com leite, pão de queijo e cueca virada. Então, só o que há para dizer é:  
 -Bom dia, loucura!! Isso tudo me faz muito feliz! Mas eu só quis dizer.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Romeu drogado ou Vera querida, eu chi amo! Parte 2


Subitamente entra no plantão Vera querida, acompanhada por dois brigadianos que conduziam o Romeu drogado. Inconformado, este exclamava seu amor pela cabeleireira, tal como acontecera alguns dias antes. Um único pensamento passou por minha cabeça: -De novo!!! A violação das medidas protetivas levou o casal até nós, num curto espaço de tempo. Os colegas da BM explicaram brevemente o que havia ocorrido. Sendo hora do almoço, o plantonista dera uma rápida saída, aliás, como os demais da DP. Apenas eu, um colega da Volante e Deus estávamos no prédio. Eu dizia tantos “ai meu Deus”, que, suponho, Ele desceu do céu para o plantão. Os PMs foram chamados para outra ocorrência, saíram para retornar mais tarde. A cabeleireira foi em busca de algum alimento. Ali permanecemos com o Romeu choroso, que imediatamente anunciou que poria fim a própria vida. Deixamos que fizesse sua cena, apenas observando o protagonista, até ele começar a bater com a cabeça na parede.  Meu colega tentou fazê-lo parar, advertindo-o sobre os ferimentos, eticetera, eticetera, e nada, a gritaria continuou, acompanhada das cabeçadas. A possibilidade do sujeito ficar com lesões nos deixou preocupados. Sabíamos da nossa responsabilidade pela integridade física do preso. Preocupava-nos a possibilidade do preso adquirir lesões sob a nossa custódia e, também, por estarmos os dois em estágio probatório. Bateu a insegurança. As pessoas passavam na calçada e espiavam pelas janelas da delegacia. Os gritos aguçavam a curiosidade dos passantes. Meu colega pediu que eu segurasse o Romeu, enquanto telefonava solicitando o retorno da PM. Cruzei as mãos atrás do pescoço do homem autolesivo e passei a puxá-lo para frente, para impedir que sua cabeça batesse na parede. Da janela, as pessoas me viam puxar a criatura em minha direção e ele a gritar. Eu suava muito com o esforço e estava bastante tensa por participar daquela cena, no mínimo, estranha. Não podíamos pedir ajuda aos transeuntes! Ficaria na história da pequena cidade o pedido de socorro da polícia aos cidadãos. Comecei a ficar preocupada com o ridículo da situação; a platéia, que agora era minha e dele, poderia interpretar que eu assediava o preso, e que ele gritava por não aceitar o assédio. Finalmente meu colega terminou os telefonema. Pude, então, interromper aquela ridicularia. Busquei algo para amortecer as cabeçadas. Abençoado Código Penal! Funcionou, graças ao bom Deus! O plantonista retornou, para nosso alívio, e junto chegaram os PMs, fato que modificou a conduta do Romeu tornando-se muito calmo. Hoje, ao lembrar o episódio, percebo que a minha inexperiência, assim como a do colega, certamente deram asas ao abuso de paciência por parte daquela criatura, que encenou o tempo inteiro, deixando-nos em estado total de exaustão. Iniciado o registro da ocorrência, ficamos sabendo que nosso preso escandaloso tinha um histórico de muitas confusões, não trabalhava e vivia às custas da cabeleireira viúva. Dela provinha o dinheiro para as drogas. Estava com 29 anos de idade, e Vera querida com 53. Pelo que pude apurar, ela recebia uma pensão em razão da viuvez. Pode parecer pouco, mas é comum, em grupos menos favorecidos, uma mãe que recebe bolsa família por dois ou três filhos virar alvo de parasitas de tipos como o Romeu. Pois é, o nosso “herói” tinha razões para espernear. A perda da galinha dos ovos de ouro, certamente, o deixava muito preocupado. Vera querida agora se comportava como uma mãe austera, ameaçando abandoná-lo, sem dinheiro para suas “pedrinhas”. Pensam que terminou por aí? Não! Apesar das afirmativas contrárias, a cabeleireira voltou ao convívio de seu amado que, embora fosse um estorvo, a fazia sentir-se invejada em razão de ser um companheiro tão jovem.  Soubemos da reconciliação quando, duas semanas mais tarde, ela retornou à delegacia acompanhada do irmão, da cunhada e de uma sobrinha, os quatro se dizendo ameaçados de morte pelo Romeu drogado. Ela evitava olhar em minha direção. Dava para perceber que Vera querida sabia haver esgotado a cota de paciência de todos os presentes, particularmente, a minha, uma vez que eu já me expressara de forma bastante clara sobre aquele circo que o casal formava com seus desentendimentos.  O abençoado celular da Volante tocou chamando para um trabalho externo, o que teve o valor de um presente para mim. Pensei: -Adeus, Vera querida! De preferência, até nunca mais!!! Mas eu só quis dizer. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Romeu drogado ou Vera querida, eu “chi” amo! Parte 1


Como já havia ocorrido em outras ocasiões, ela entrou na DP para ser protegida do atual companheiro. Eu ignorava a habitualidade das brigas travadas pelo casal. Estava iniciando minha carreira policial e, conseqüentemente, ansiosa por ação. As queixas da mulher me deixaram indignada. Pobre mulher! pensava eu. O companheiro era usuário de drogas, facão, ameaças, e ela estava impossibilitada de buscar suas roupas na casa que, até aquele momento, havia sido seu lar. Relatou que tinha medo, enfim, mil mazelas, mas sem lágrimas. Na ocasião trabalhavam dois delegados na DP, ambos recém formados e igualmente ávidos por atuar. Em matéria de experiência na lida com a clientela de uma Delegacia, eles, assim como nós da Volante, eram totalmente"verdes". Imediatamente ficou determinado que a mulher, dita cabeleireira, seria levada à casa onde estavam seus pertences, para retirá-los sob nossa proteção. Era uma época chuvosa e, ao saber da missão, um colega veterano e morador da cidade alertou para o barro que iríamos encontrar na estrada. Outro agente, novato também, ao escutar a observação do veterano, e contrariando o costumeiro, prontamente me passou a chave da viatura para que eu dirigisse – a gente nunca escapa de ter um metido a esperto entre os colegas. Assumi a direção, e digo para quem não sabe, que com mulher polícia, nem o diabo pode! Saímos em direção ao tal local, levando junto a cabeleireira, seguidos por outro veículo, no qual estavam os dois delegados. Dizer que fomos para uma estrada embarrada me parece muito pouco. Era uma meleca só durante todo o caminho, com a viatura rabeando a cada momento. Confesso que jamais havia dirigido no barro. A mulher indicava o caminho na base dos “dobra aqui e é logo ali”, intermináveis. Chegamos ao local finalmente; hora de enfrentar a fera drogada. Visualizamos um sujeito na soleira da porta. Quando avistou quatro policiais com armas na mão, a criatura passou a choramingar, chamando pela mulher numa cena lamentável. Colocamos uma cadeira no lado de fora do barraco e algemamos a ela o “perigoso”, para que não corresse atrás da protegida. Ele só fazia prantear a ingratidão da cabeleireira que estava por abandoná-lo. Reunidos em trouxas os pertences, saímos em disparada após soltar o homem, que ainda tentou correr atrás dos carros, tal como faria um cão querendo alcançar seu dono. A propósito, o nome da mulher era Vera. Em suas exclamações chorosas com características de estado de embriaguez, ele lamentava: -Vera, querida, eu “chi” amo! Por que isso, Vera!? Não vai embora, meu amor!
Na operação resgate dos pertences da vítima, dava para perceber um certo ar de travessura em nós, policiais. Verdinhos,verdinhos! Havíamos conseguido fugir do Romeu drogado, embora a persistência dele, por instantes, até nos tenha feito imaginar o contrário.  Voltamos para a DP com os veículos cobertos de barro, jurando que o episódio estava encerrado. Só que não! Mas eu só quis dizer.  

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Entre a surra e a Ritalina


Numa tarde de plantão, entrou na DP uma mulher acompanhada de um adolescente magrinho, de ar cansado. Não há erro, não, cansado era o jovenzinho. Logo, eu e meu colega verificamos tratar-se de mãe e filho. O menino sentou, apoiando os cotovelos sobre os joelhos, deixando que as mãos sustentassem o peso de sua cabeça. A mãe estava ali para registrar uma ocorrência. Contou que seus dois filhos eram doentes e tinham problemas, tomavam remédios receitados pelo “siquiatra”. Que dois indivíduos haviam ido a sua casa e oferecido trabalhos de cura espiritual, ou coisa que o valha, para resolver os problemas de saúde dos meninos. Para isso, cobraram a quantia de um mil e quatrocentos reais. Como o tal tratamento não surtiu efeito, na visita seguinte dos indivíduos ela reclamou. Os mesmos pediram mais setecentos reais para que o tratamento fosse concretizado com garantia de cura. Negou-se a pagar, dizendo que não queria mais saber de gastar dinheiro com um tratamento caro e que não apresentara qualquer resultado até o momento. Os indivíduos, provavelmente vendo a possibilidade de lucro frustrada, no dia seguinte esperaram pelo jovenzinho em seu percurso da escola para casa e lhe aplicaram uma surra “curativa”, quem sabe uma tentativa de exorcismo. A mãe ficou horrorizada ao saber da atitude dos supostos curandeiros. Depois do registro, arrisquei perguntar qual medicamento o guri tomava. Ela informou que o “siquiatra” havia receitado Ritalina. Perguntei se o menino era hiperativo. Saindo do estado de mutismo absoluto em que se encontrava desde sua entrada na DP, o menino, branco como uma vela, levantou a cabeça e respondeu num tom que beirava a irritação: -Eu não sou hiperativo, eu só não consigo dormir!
Diante disso, pensei comigo que nem a surra de exorcismo poderia superar os efeitos da Ritalina mal dosada e administrada diariamente. Eu e o colega aconselhamos que a mulher procurasse o médico, pois o remédio que este havia receitado poderia não estar fazendo o efeito necessário, eticetera e tal. Ela disse que provavelmente procuraria um médico de outra cidade, mesmo que fosse preciso pagar a consulta, pois não havia outro “siquiatra” na cidade em que ela residia, que era muito difícil conseguir uma consulta com o único existente. Apoiei a decisão, pois quem gastou com curandeirismo, certamente poderia pagar por uma consulta e dar a chance de o menino dormir como qualquer pessoa precisa. A mulher agradeceu o atendimento e a orientação e saiu, seguida pelo adolescente insone. Perguntei ao meu colega até quando eu poderia sobreviver naquele mar de absurdos, sem procurar um “siquiatra”. Rimos e prosseguimos na nossa rotina nada rotineira, onde tomamos conhecimento de situações inusitadas, sobre as quais, embora tomados de surpresa, precisamos encontrar palavras de orientação e conforto. O povo simples, sem cultura, fica a mercê de curandeiros e de médicos que receitam mas não acompanham os resultados de suas receitas (por razões que não cabem  ponderar no momento); sofre desnecessariamente em consequência da falta de princípios, das falhas do sistema de saúde e da ignorância. E o rapazinho insone, fica entre a surra e a Ritalina. Mas eu só quis dizer.     

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Entre a vocação e a desmotivação.

Fiquei triste ao saber da morte, em serviço, de um agente, colega da Civil de Caxias do Sul. Não o conheci, mas isso não impediu meu abatimento pela notícia. Ocorre que, na nossa profissão, somos todos ligados uns aos outros de uma forma bastante peculiar. Quando ocorre no exercício funcional, a fatalidade de um tem o peso de alerta para todos. Com a morte de um de nós em serviço, somos lembrados da nossa vulnerabilidade. Todos os seres vivos, ao pressentirem o perigo, tentam sair da situação de risco; o policial, contrariando o instinto natural, deve se deslocar para ela, o que é inerente ao exercício de suas atribuições. Somos poucos, muito poucos, e muito mal pagos para fazer nosso trabalho. Não sou credenciada a falar pelo grupo, no entanto posso falar dos meus sentimentos e daquilo que observo. A sociedade cobra segurança, desvendamento da autoria de crimes, prisão de traficantes e outros criminosos, mas parece ser completamente impermeável às constantes denúncias efetuadas pelos meios de comunicação sobre a falta de efetivo e os baixos rendimentos dos agentes. Parece pouco importar o que há por trás do contexto da segurança pública. E até dou razão a quem reclama segurança, pois os impostos são pagos para tê-la. Como cidadã, também clamo por ela, a fim de que meus familiares circulem em paz, e para, de uma maneira geral, haver qualidade de vida. Entretanto percebo a distância que nos separa desse tão reivindicado direito fundamental, na sua plenitude. Sei também o quanto é árduo o trabalho policial, que busca impedir a proliferação do crime que desassossega a vida em todas as comunidades, independentemente de suas dimensões. Nunca é demais ressaltar a existência de uma administração governamental historicamente falha, relegadora dos serviços de segurança pública. Tanto é verdade, que educação e segurança são os carros-chefes dos discursos de quem pretende se eleger. Depois, conquistada a vitória, inicia-se a tentativa de administrar a insatisfação do povo e dos servidores com verdadeiras esmolas. Somos poucos e fazemos muito com o pouco que nos disponibilizam. Gostaria de ter o dom de transmitir a garra caracterizadora  da ação dos policiais em operações. Muitos são jovens, com muito para viver. Todos deixam, em casa, suas famílias, seus amores, e vão cumprir sua obrigação funcional. Cada operação bem sucedida ilumina os rostos de todos, e o sorriso se transforma em regra geral. O ganho mensal, esgotado antes de cobrir as despesas básicas, é esquecido ao realizar a missão. Percebo pessoas vocacionadas ameaçadas pela desmotivação oriunda da falta de reconhecimento, inclusive financeiro. O trabalho realizado nunca é suficiente, pois a criminalidade aumenta exacerbadamente. Entre uma missão e outra, há o tempo para pensar no sentido da permanência na vida policial e nas perspectivas resultantes dela. De volta ao lar, se deparam com os problemas que resultam do dinheiro muito escasso para manter a família. Originam-se, assim, em consequência de uma administração deficiente, agentes desgostosos, para os quais a valorização é uma conquista remota que os assombra até a morte em ação, ou, com sorte, até a morte natural. A despeito disso tudo, uma coisa é certa: fazer parte da Instituição Polícia Civil orgulha e impulsiona ao cumprimento do dever, independente do esforço necessário para empreendê-lo. É o que sinto e o que observo. Mas eu só quis dizer.